segunda-feira, 1 de agosto de 2011

CURSO PREPARATÓRIO PARA DISCIPULADORES LIÇÃO 6: A EDUCAÇÃO CRISTÃ E A ESSÊNCIA DO DISCIPULADO


LIÇÃO 6: A EDUCAÇÃO CRISTÃ E A ESSÊNCIA DO DISCIPULADO

“João 6.45 nos mostra que quando a conversão nasce do ensino e não apenas da pregação, os resultados são certos e perenes. Paulo deixou claro que, prioritariamente, a função das Escrituras é o ensino do povo de Deus (Rm 15.4)” [1]

Não é muito difícil perceber, que a relação do ensino e o seu papel no cumprimento da Grande Comissão, não é ativa e verdadeiramente eficaz, mesmo na era da informação fácil, através de internet e a maior existência dos programas evangélicos, desde as correntes mais tradicionais até as pentecostais e neopentecostais ocupando um maior espaço na TV aberta. Mesmo levando em consideração que em muitas igrejas ainda existe o abençoado departamento da escola bíblica dominical, que segundo historiadores, foi iniciado por Robert Raikes, que viveu entre 1785-1811, iniciando este trabalho com as crianças de cortiços na Inglaterra, e hoje é ainda referência de ensino em muitas denominações cristãs. O ensino cristão ainda não tem desempenhado o seu papel de modo eficaz mesmo na era moderna, onde há cultos de ensinos, seminários teológicos, cursos de reciclagem para professores da EBD e numa época em que a literatura evangélica tem atingido um impressionante espaço. 

Por quê? Apesar deste maravilhoso contexto que a igreja evangélica moderna brasileira vive, grande parte dela apresenta uma séria deficiência na área de educação cristã, manifesta em pelo menos três áreas, e que afeta diretamente o desempenho bíblico da grande comissão, que podem ser assim delimitados para melhor entendimento: 1) O conteúdo do ensino apresentado; 2) O individualismo cristão e 3) Uma compreensão errada no objetivo da educação cristã.

O CONTEÚDO DO ENSINO APRESENTADO

Basta uma rápida observação dos programas evangélicos cristãos da igreja moderna, para constatarmos que há uma discrepância do ensino de determinadas denominações evangélicas e os ensinos fundamentais da Palavra de Deus. Uma hermenêutica incorreta dos textos sagrados tem dado base para justificar biblicamente as filosofias humanas e seus desejos pessoais. Diante deste quadro temos ouvido alguns ensinos que levam o cristão a uma vida alienada dos princípios bíblicos, como por exemplo, em um destes programas de TV, uma pregadora ensinava que as promessas que Deus tinha prometido para Abraão eram riquezas materiais e como nós somos hoje filhos de Abraão, temos sim a promessa para ficar ricos, como tentativa de justificar a teologia da prosperidade. Na maioria dos púlpitos evangélicos, vemos que o conteúdo dos ensinos tem sido deficiente, levando em conta que biblicamente, a pregação contém ensino, como vemos, por exemplo, em Jesus e nos apóstolos. Muitos pregadores da igreja evangélica moderna trocam a mensagem bíblica por “emocionalismos” e “palavras de bênçãos” e “palavras de vitória” que mais mexem com o ego e as emoções dos ouvintes.

A ausência do ensino cristão arma o palco para a apostasia. (ver Hb 6.1ss) [2]

            Até mesmo nos hinos, que são outra forma de transmitir um ensinamento, são carentes de base bíblica, e cheias de um triunfalismo que transformam o SENHOR E DEUS num mero cedente dos desejos dos crentes.  É urgente um retorno ás Escrituras. O ensino faz parte da ordem de Jesus para cumprirmos a grande comissão, com o objetivo de fazermos discípulos:

Portanto, ide, ensinai todas as nações,... Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado. [3]

            Podemos ensinar através de palavras, pelas mensagens dos hinos, até mesmo pelo nosso exemplo, mas o conteúdo deste ensino deve ser bíblico, evangélico e cristocêntrico.  A mensagem de Jesus e dos apóstolos, bem como da igreja primitiva, apesar de estar inserida em um contexto sócio-cultural, era evangélica e cristocêntrica. Jesus Cristo e seus ensinamentos nunca podem deixar de ser à base do ensino cristão, pois este tem por objetivo fazer discípulos do Senhor Jesus Cristo, e não de qualquer líder ou denominação. No discipulado cristão deve haver um ensino claro e verdadeiro das Escrituras em temas quanto ao pecado, o plano da salvação, da pessoa de Cristo, Espírito Santo, justificação, perseverança em meio ao sofrimento, a esperança do crente, santificação, enfim, tudo relacionado à pessoa de Jesus Cristo e sua obra:
E todos os dias, no templo e nas casas, não cessavam de ensinar e de anunciar a Jesus Cristo. [4]
           
            Esta negligência dos pentecostais com o ensino, por exemplo, é histórica. Rick Nañez em seu livro Pentecostal de coração e mente, mostra de forma contundente que as raízes do antiintelectualismo pentecostal vêm desde seu fundador, Charles Parham, que recusava outro tipo de ensinamento ou comentário ou interpretação de estudiosos históricos na exposição bíblica. Ele via todos aqueles antes dele como indignos de confiança em termos de ensino doutrinário e exposição bíblica.[5] Sua escola, a Bethel Bíble School, fundada em 1900, tinha em seu currículo basicamente da leitura da Bíblia e de apresentação de comentários pessoais sobre vários textos bíblicos. Este tipo de pensamento ainda é presente na vida de muitos cristãos pentecostais e neopentecostais que quando são confrontados com a necessidade de conhecer e estudar as doutrinas das Escrituras Sagradas se esquivam respondendo “eu aprendo com o Mestre” ou “Teologia deixa o crente frio irmão” ou ainda “É o Espírito Santo que me revela a palavra”. Este modo de pensar tem levado os cristãos a darem mais valor as suas experiências pessoais, do que aos ensinamentos da Palavra de Deus. Como fazer discípulos de Jesus Cristo baseando-se apenas nas experiências espirituais e individuais? Sem dúvida o povo de Deus ainda hoje se perde por falta de conhecimento[6], e isto está presente na mensagem e ensinamentos de grande parte da igreja evangélica atual.

INDIVIDUALISMO
            Outro fator que podemos listar como ‘pedra de tropeço’ do verdadeiro papel do ensino no cumprimento da Grande Comissão é o individualismo.  Não é individualidade – o caráter especial, particularidade ou originalidade de uma pessoa -, mas individualismo – conduta egocêntrica, onde o indivíduo se considera como a realidade mais essencial ou elevada.
            Este tipo de comportamento é abundantemente presente no cristianismo atual, podendo ser atribuído aos ensinamentos atuais onde a teologia da prosperidade e o egocentrismo tem estado constantemente presentes nas mensagens evangélicas de grande parte da igreja moderna. É também característica da maioria dos membros das grandes igrejas, das massas, dos grandes ajuntamentos e reuniões, que logo após o término das reuniões, cada um segue a sua vida. Não existe aquela comunhão. É também conseqüência do próprio comportamento de muito de seus líderes que ministram ao povo em grandes reuniões ou em seus programas de rádio e TV, porém são acessíveis apenas a um seleto grupo, longe da maioria dos membros das denominações que representam.
            Este comportamento expresso por tais líderes influenciam seriamente na vida de seus membros, que passam a adotar atitudes semelhantes e deixam de participar de uma vida de comunhão, onde uns aos outros se exortam e levam as “cargas uns dos outros” [7] no caminho da fé e do discípulo cristão.
            Creio que se estivesse vivo hoje, Richard baxter (1615-1691) seria um verdadeiro João Batista pregando no deserto contra o modo como o ministério pastoral é exercido por muitos nos dias de hoje, sobre tudo em relação ao ensino cristão. Ele exerceu um importante ministério de ensino na Inglaterra, em Kidderminster, um vilarejo com cerca de 2 mil pessoas e em torno de 800 lares, “um povo ignorante, rude e dado a folia”[8] que foi abençoada com seu ministério pastoral de aconselhamento pessoal e discipulado, dando uma grande contribuição para melhorar a prática da instrução pessoal. Baxter podia com autoridade incentivar através de seu exemplo outros pastores seguirem seu exemplo na prática do ministério pastoral. Exortações como estas eram dadas aos seus alunos no ministério pastoral, que parecem profecias dos tempos que vivemos hoje:
“Irmãos, se a salvação das almas for realmente a sua missão para a glória de Deus, certamente desejarão realizá-la tanto no púlpito quanto fora dele. (...) Entretanto, se os senhores apenas almejam o ministério do púlpito, não serão ministros exceto quando estiverem pregando. Nesse caso, não serão dignos do respeito devido aos ministros de Cristo.” [9]

“Em vez do ajuntamento de tantos pastores sem Igreja nos grandes centros, providenciariam mais pastores nas Igrejas, a fim de permitir o trabalho mais pessoal e familiar. Enquanto houver tantos pastores carnais que pretendem ser “donos” de Igrejas, os líderes eclesiásticos não terão maior motivo para ajudar no trabalho de Deus e serão tentados por tais pastores mundanos a manter suas posições abastadas e confortáveis, em prejuízo da Igreja.”[10]

            Baxter não estava sendo extraordinário. Apenas seguia o exemplo deixado nas escrituras sagradas. Basta ver como Jesus gastava tempo no preparo de seus discípulos em particular e não apenas dos doze:

“E quando se achou só, os que estavam junto dele com os doze interrogaram-no acerca da parábola. E ele disse-lhes: A vós vos é dado conhecer os mistérios do Reino de Deus, mas aos que estão de fora essas coisas se dizem por parábolas” [11]


            E este ministério do ensino ele deixou como parte principal da Grande Comissão, para que os apóstolos e conseqüentemente a sua Igreja ensinassem a observar tudo o que ele tinha ordenado (Mt 28.20). E depois do pentecostes, vemos que eles seguiram este mandamento fielmente. Pedro foi proibido de ensinar em nome de Jesus, ordem que ele não obedeceu (At 4.18; 5.21, 24). Paulo também tinha um admirável ministério de ensino, como vemos em diversas passagens do livro de Atos dos Apóstolos bem como em suas demais epístolas, porém podemos ter, por exemplo, desse zelo pessoal pelo discipulado e ensino, o conselho que ele dá ao seu discípulo Timóteo, sobre o defender e ensinar a Palavra, ante a sua iminente execução:
“Portanto, não te envergonhes do testemunho de nosso Senhor, nem de mim, que sou prisioneiro seu; antes, participa das aflições do evangelho, segundo o poder de Deus,... para o que foi constituído pregador e apóstolo, e doutor dos gentios; por cuja causa padeço também isto, mas não me envergonho, porque eu sei em quem tenho crido e estou certo que é poderoso para guardar o meu depósito até àquele Dia. Conserva o modelo das palavras que de mim tens ouvido, na fé e na caridade que há em Cristo Jesus. Guarda o bom depósito pelo Espírito Santo que habita em nós.” [12]

            Oremos para que o Senhor da seara nos dê este coração, assim como levante obreiros para sua obra com este espírito. Através de obreiros com este coração na obra de Deus, a igreja terá exemplos de pessoas que seguem os ensinamentos bíblicos sobre o discipulado, e poderá cumprir o seu papel socializador no ingresso do novo convertido à igreja.

ERRADA COMPREENSÃO DO OBJETIVO DA EDUCAÇÃO CRISTÃ
            A educação cristã não tem o objetivo apenas de transmitir conhecimentos teológicos para os seus ouvintes, porém tem o objetivo de levarem-nos a uma mudança de vida, a ensiná-los a viverem o cristianismo. Ser discípulo de Cristo, não se resume apenas em ter um bom conhecimento teológico, porém viver imitando o Senhor Jesus, seguindo os seus passos:
 Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado... (Mateus 28.20)
Pelo que, rejeitando toda imundícia e acúmulo de malícia, recebei com mansidão a palavra em vós enxertada, a qual pode salvar a vossa alma. E sede cumpridores da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos. Porque se alguém é ouvinte da palavra e não cumpridor, é semelhante o varão que contempla ao espelho o seu rosto natural; porque contempla a si mesmo, e foi-se, e logo se esqueceu de como era. (Tiago 1.21-24).
            A educação cristã será eficaz no discipulado, quando o conteúdo deste ensino for bíblico, e a comunhão entre os irmãos servir neste propósito de transmitir as verdades da Palavra de Deus através da comunhão e do ensino e exemplo pessoal, tendo em vista que o objetivo principal do discipulado não é apenas uma transmissão de conhecimentos, mas levar o novo convertido a viver um cristianismo puro e simples, fundamentado na Palavra de Deus, no imitar a Jesus Cristo, o verdadeiro discipulado cristão.
Ev. Alan G. de Sá


[1] DORNAS, Lécio. Vencendo os inimigos da Escola Dominical. 2ª edição. São Paulo: Hagnos, 2002, p.17.
[2] CHAMPLIN, Russell Norman. Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. 7ª edição, São Paulo: Hagnos, 2004, p.390.
[3] Mateus 28.19-20.
[4] Atos 5.42.
[5] NAÑEZ, Rick. Pentecostal de coração e mente: um chamado ao dom divino do intelecto. São Paulo: Editora Vida, 2007, p.104.


[7] Gálatas 6.2
[8] BAXTER, Richard. Manual pastoral de discipulado. 1ªed. São Paulo: Cultura Cristã, 2008, p.9
[9] Idem, p.47.
[10] Idem, p.162.
[11] Marcos 4.10-11.
[12] 2 Timóteo 1.8, 11-14.

CURSO PREPARATÓRIO PARA DISCIPULADORES LIÇÃO 5: O DISCIPULADO NA IGREJA PRIMITIVA

LIÇÃO 5: O DISCIPULADO NA IGREJA PRIMITIVA
“E todos os dias no templo e nas casas, não cessavam de ensinar e de anunciar a Jesus Cristo.” [1]
“O discipulado cristão é uma expressão vital da vida cristã. Ensiná-lo é imperativo; negligenciá-lo é trágico. (...) Com tal ênfase no Novo Testamento, não será verdade que a igreja cristã na pátria e no exterior falha porque negligência a essência da comissão de Cristo? Nós evangelizamos, realizamos conversões, mas falhamos quanto a fazer discípulos.” [2]
O Discípulo é literalmente um aprendiz, aquele que segue os ensinamentos de alguém.[3] Referente a Jesus, o discípulo não tem apenas a relação de professor e aluno, mas de plena confiança, onde o discípulo confia todas as áreas de sua vida nas mãos de seu mestre, que não é apenas seu professor, mas principalmente seu Senhor. Jesus chama de discípulos todos aqueles que permanecem em sua palavra.[4] Entretanto, discípulos não são feitos de uma hora para outra. Leva tempo, e como temos visto o processo humano e institucional de discipulado cristão não é eficaz em alcançar este objetivo de formar discípulos de Jesus Cristo. Diante de tal desafio, que rumo seguir para levarmos a efeito a ordenança de Cristo em meio ao confuso cenário evangélico brasileiro atual? Creio que seja à volta aos princípios de discipulado realizados pela igreja primitiva. Apesar de vivermos em um contexto cultural diferente daquela época, os desafios permanecem os mesmos à evangelização em um mundo que é indiferente e hostil aos ensinamentos de Cristo. A necessidade de arrependimento e crer em Jesus Cristo para remissão dos pecados, como era a necessidade do mundo na época dos eventos registrados no livro de Atos dos Apóstolos são a mesma do mundo atual, e creio que o que está registrado nas páginas das Sagradas Escrituras é manual divino para todas as épocas, no papel de direcionar a igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo na sua tarefa de fazer discípulos de todas as nações.
Como eles desempenharam esta tarefa? Podemos ver claramente que os apóstolos seguiram o exemplo do Senhor Jesus em formar discípulos. Seus métodos de instrução e associação, que podemos chamar também de ensino e comunhão, estavam presentes no ministério dos apóstolos e dos primeiros cristãos:
“E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão e nas orações. (...) Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum.” [5]
“E todos os dias, no templo e nas casas, não cessavam de ensinar e de anunciar a Jesus Cristo.” [6]
“E sucedeu que todo um ano se reuniram naquela igreja e ensinaram muita gente. Em Antioquia foram os discípulos pela primeira vez chamados cristãos.” [7]

Através de textos como este, podemos perceber que discipulado é uma experiência única e também contínua, é crescer na graça e conhecimento do Senhor Jesus Cristo.[8] Pentecostes, citado no capítulo dois do livro de Atos, não gerou logo discípulos. Como Peters observou, não é dito nada sobre os discípulos nos cinco primeiros capítulos de Atos exceto que eram aplicados no estudo da Palavra, fiéis em suas amizades, fervorosos em suas orações e contribuíam muito e eram hospitaleiros. [9] A pregação, testemunho e ensinamentos eram reservados apenas aos apóstolos e apenas depois de os novos cristãos terem se acostumado ao meio de vida cristão conforme os ensinamentos dos apóstolos e fortalecendo as novas amizades entre os irmãos é que eles estavam prontos para agirem como testemunhas fiéis do Senhor. É muito importante que haja tempo, amizade e ensinamento no processo de discipulado.

A PRIMEIRA OPORTUNIDADE PARA APLICAR A LIÇÃO APRENDIDA

Tempo, amizade e ensinamento. Esses princípios usados pelo Senhor Jesus ao discipular os apóstolos, deveriam agora, direcionados e capacitados pelo Espírito Santo de Deus, ser usados pelos apóstolos na sua tarefa de fazer discípulos de todas as nações. E não demorou muito para que eles tivessem a primeira oportunidade para aplicarem as lições que haviam aprendido após três anos andando com Jesus, sendo discipulados pelo Senhor. Esses princípios aplicados pelos apóstolos são observados logo de início, diante do seu primeiro desafio de fazer discípulos logo após a primeira pregação realizada por Pedro após a poderosa manifestação do Espírito Santo batizando aqueles que estavam esperando, conforme Jesus orientou[10]. Havia um grande número de convertidos que agora precisavam ser discipulados:

“De sorte que foram batizados os que de bom grado receberam a sua palavra; e, naquele dia, agregaram-se quase três mil almas.” [11]
Após a poderosa e ungida pregação de Pedro, o resultado da ação do Espírito Santo através da pregação da Palavra gerou três mil novos convertidos, três mil bebês espirituais, que precisavam ser alimentados; eram três mil novas vidas que precisavam ser discipuladas. Como os apóstolos agiram diante deste desafio, sendo que dentro de poucos dias muitos destes convertidos judeus voltariam para suas nações de origem? Não podemos esquecer-nos do que diz o texto sagrado:

“E em Jerusalém estavam habitando judeus, varões religiosos, de todas as nações que estão debaixo do céu. E correndo aquela voz, ajuntou-se uma multidão e estava confusa, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua. E todos pasmavam e se maravilhavam, dizendo uns aos outros: Pois quê! Não são galileus todos esses homens que estão falando? Como pois os ouvimos, cada um, na nossa própria língua em que somos nascidos? Partos e medos, elamitas e os que habitam na Mesopotâmia, e Judéia, e Capadócia, e Ponto e Ásia, e Frígia, e Panfília, Egito e partes da Líbia, junto a Cirene, e forasteiros romanos (tanto judeus como prosélitos), e cretenses, e árabes, todos os temos ouvido em nossas próprias línguas falar das grandezas de Deus.” [12]

Os apóstolos criaram condições emergenciais para que antes de voltarem para suas nações, estes novos convertidos fossem discipulados, para que conhecessem mais ao Senhor:

“E perseveraram na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações. Em cada alma havia temor, e muitas maravilhas e sinais se faziam pelos apóstolos. Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e fazendas e repartiam com todos, segundo cada um tinha necessidade. E perseveravam unânimes todos os dias no templo e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e caindo na graça de todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar.” [13]

Como observamos anteriormente, após este relato de Lucas, nada é mais dito acerca destes novos discípulos até o capítulo seis, e a questão dos sinais e maravilhas e ensino era feitos pelos apóstolos. (Atos 2.42), não pelos novos discípulos. Estes apenas aprenderam tudo, ouvindo e observando o exemplo dos apóstolos. Eles cresceram como crianças recém-nascidas, observando tudo e ouvindo atentamente, para depois imitar. Nasceram e foram criados em um ambiente de comunhão e instrução.

No discipulado, comunhão e ensino andam juntos, pois o discípulo aprende pelo exemplo de seu mestre, do discipulador. Sejamos atentos ao que diz o relato das Escrituras Sagradas: Eles ouviam o ensino dos apóstolos e viam seus exemplos, que podem ser listados segundo Leroy Eims[14]:

1.      Aprenderam a perseverar em meio às perseguições por causa do evangelho (Atos 4.17; 5.18, 40);
2.      Aprenderam como os apóstolos pregavam o evangelho em todas as oportunidades (At 3.14, 15; 4.10, 33; 5.30, 31);
3.      Aprenderam como os apóstolos a reagir com alegria diante da perseguição pelo nome de Cristo (At 5.41).

O DISCIPULADO BÍBLICO PRODUZ CRISTÃOS QUE DARÃO CONTINUIDADE A OBRA DE CRISTO.

Este ambiente que eles foram discipulados, de comunhão, ensino e tempo, debaixo da capacitação do Espírito Santo, gerou discípulos que seriam produtivos em agirem como testemunhas de Jesus Cristo. Não podemos esquecer que ser testemunha de Jesus Cristo é o ponto de vista principal que devemos interpretar todo o relato do livro de Atos dos apóstolos, que bem pode ser chamado dos “Atos do Espírito Santo”:

“Mas recebereis a virtude do Espírito Santo que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até os confins da terra.” [15]

            Quem deu continuidade à ordem de Cristo, de testemunhar em Judéia e Samaria? Os apóstolos? Não, foram os novos discípulos, após o início da perseguição por causa de Estevão, liderada por Saulo:

“E também Saulo consentiu com a morte dele. E fez-se, naquele dia, uma grande perseguição contra a igreja que estava em Jerusalém; em todos foram dispersos pelas terras da Judéia e da Samaria, exceto os apóstolos.” [16] 

Judéia e Samaria foram evangelizadas pelos novos discípulos, em meio à perseguição. O modo como reagiram com fé diante da perseguição mostra que os discípulos aprenderam bem a lição com os apóstolos. Eles não saíram em fuga desesperadamente, e sem olhar para os lados ou para trás. Muito menos abandonaram a Cristo, antes o anunciava em todas as oportunidades:

“Mas os que foram dispersos iam por toda a parte anunciando a palavra. E descendo Filipe a cidade de Samaria, lhes pregava a Cristo.” [17]

Porém, eles só agiram deste modo observando o exemplo pessoal de seus líderes. Apenas seguiram o exemplo pessoal dos apóstolos, que os discipularam, em um ambiente marcado pela ação do Espírito Santo, amizade e comunhão constante entre os irmãos e ensino sólido da Palavra de Deus. Levou tempo, mas este discipulado gerou discípulos que levaram a efeito a continuidade da ordem de Cristo Jesus de serem suas testemunhas, de fazer discípulos de todas as nações.

Elementos como estes apresentados no ambiente do discipulado da igreja primitiva, bem como exemplos pessoais para serem seguidos estão de certa forma, escassos no meio cristão atual, porém, Deus não se deixa sem testemunho, e tem sempre os “sete mil” que não se dobram e não se rendem diante do esfriamento a apostasia espiritual característicos destes últimos dias. Oremos para que em cada cristão, seja ele ministro líder ou leigo, bem como em suas comunidades, estejam presente estes princípios como estes registrados nas Escrituras, bem como este testemunho pessoal, sobre o apóstolo João, sobre o amor e o cuidado para discipular uma vida só, Eusébio ainda nos faz ouvir até hoje através do testemunho da história:

Também Clemente, indicando a época, acrescenta uma narrativa digna de maior aceitaçãonpara os que se deleitam em ouvir o que seja excelente e proveitoso naquele discurso a que deu o título “Quem é o Homem Rico salvo?” Tomando, pois, o livro, lede-o onde contém uma narrativa semelhante a esta: “Ouvi uma história que não é fictícia, mas história verdadeira, transmitida e preservada com cuidado, a respeito do apóstolo João. Eis que após a morte do tirano, vindo da ilha de Patmos para Éfeso, ia também, quando chamado, às regiões vizinhas dos gentios: a algumas para nomear bispos, a algumas para instituir igrejas inteiramente novas, a outras para nomear para o ministério alguns daqueles que eram destacados pelo Santo Espírito. Chegando, pois, a uma dessas cidades, não muito longe, da qual alguns também dão o nome, e tendo em outros aspectos consolado seus irmãos, por fim voltou-se para o bispo ordenado (destacado) e, vendo um jovem de boa estatura, feição graciosa e mente ardente, disse: ‘Este vos recomendo com toda diligência na presença da igreja e de Cristo’. O bispo tendo-o tomado e tudo prometido, repetiu e testificou a mesma coisa e depois retornou a Éfeso. O presbítero levou para casa o jovem que lhe foi confiado, ensinou-o, disciplinou-o e cuidou dele e no fim o batizou. Depois disso relaxou no exercício de seu cuidado e vigilância anterior, como se tivesse confiado a uma salvaguarda perfeita no selo do Senhor. Mas certos jovens vadios de e dissolutos, familiarizados com todo tipo de perversidade, infelizmente ligaram-se a ele e assim o livraram prematuramente das restrições. Primeiro eles o desviaram mediante diversões dispendiosas. Depois, saindo à noite para roubar, levaram-no com eles. Em seguida,. O incentivaram a fazer algo maior e, gradualmente acostumado a seus modos em seu espírito empreendedor, como um corcel descontrolado e forte desviado do caminho certo, rompendo os arreios, lançou-se com maior ímpeto no precipício. No final, renunciando à salvação de Deus, não planejava ofensas menores, antes, tendo cometido algum grande crime, estando então totalmente arruinado, esperava sofrer igualmente com o resto. Assim, tomando os mesmos companheiros e formando com eles um bando de ladrões, tornou-se seu chefe, sobrepujando-os em toda violência, sangue e crueldade. O tempo passou e, em certa ocasião, chamaram João. O apóstolo, depois de acertar aquelas outras questões pelas quais tinha vindo, disse: ‘Vem, bispo, devolve-me o depósito que eu e Cristo confiamos a ti na presença da igreja da qual presides’. O bispo de início ficou confuso, pensando que estava sendo traiçoeiramente extorquido por um dinheiro que não recebera; mas não podia dar crédito com respeito ao que nunca tivera nem ainda desacreditar João. Mas quando ele disse: ‘Peço o jovem e a alma de um irmão’, o velho homem, gemendo alto e também chorando disse: ‘Ele morreu’. “Como e com que morte?” ‘Está morto para Deus’, disse ele. ‘Tornou-se perverso e devasso e por fim ladrão; e agora, em lugar da igreja, tomou a montanha com um bando semelhante a ele. ’ O apóstolo, ouvindo isso, rasgou as suas vestes e, batendo a cabeça com grande em grande lamento, disse: ‘Deixei um bom guardião para a alma a alma de um irmão! Mas prepare-se um cavalo e alguém que me guie o caminho’. Ele cavalgou como estava, saindo da igreja e, chegando ao lugar, foi feito prisioneiro pela guarda dos bandidos. Ele, porém não tentou fugir nem recusou-se a ser levado; antes clamou; ‘Para isso mesmo vim: conduzi-me a vosso chefe’. Ele enquanto isso esperava, armado como estava. Mas ao reconhecer João adiantando-se em sua direção, voltou-se para fugir, tomado de vergonha. O apóstolo, porém, perseguiu-o com todo o empenho, esquecendo-se da idade e gritando: ‘ Por que foges, meu filho, de mim, teu pai idoso, indefeso? Tem compaixão de mim meu filho; não temas. Tens ainda esperança de vida. Intercederei por ti a Cristo. Sendo necessário, de bom grado morrerei por ti, como Cristo morreu por nós. Darei a minha vida pela tua. Fica, crê que Cristo me enviou’. Ouvindo isso, ele primeiro parou olhando para baixo. Depois lançou fora as armas e, então, tremendo, lamentou amargamente e, abraçando o velho homem que se adiantou, tentou rogar por si mesmo com toda lamentação de que era capaz; como que batizado pela segunda vez com as próprias lágrimas, escondendo apenas sua mão direita. Mas o apóstolo garantindo-lhe e prometendo-lhe solenemente que havia encontrado perdão para ele em suas orações nas mãos de Cristo, orando de joelhos e beijando aquela mão direita como se purificada de toda iniqüidade, conduziu-o de volta para a igreja. Então, suplicando com freqüentes orações, contendendo com constantes jejuns e abrandando-lhe a mente com várias declarações consoladoras, não o deixou, conforme se diz, até restaurá-lo a igreja. Proporcionando um exemplo poderoso de verdadeiro arrependimento e uma grande prova de uma regeneração, um troféu de ressurreição visível”.[18]

Ev. Alan G. de Sá





[1] Atos 5.42
[2]  PETERS, George W. Teologia Bíblica de Missões. Rio de janeiro: CPAD, 2000, p. 223.
[3] Mathetes (maqhthz), literalmente, “aprendiz” (derivado de manthanõ, “aprender”, proveniente de uma raiz math-, que indica pensamento acompanhado por esforço).
[4] João 8.31; 13.35; 15.8.
[5] Atos 2.42, 44.
[6] Atos 5.42.
[7] Atos 11. 36.
[8] PETERS, George W. Teologia Bíblica de Missões. Rio de janeiro: CPAD, 2000, p.230.
[9] Idem, p. 230.
[10] Atos 1.4,5; 2ss.
[11] Atos 2.41
[12] Atos 2.5-11.
[13] Atos 2.42-47.
[14] EIMS, LeRoy. A arte perdida de fazer discípulos. Belo Horizonte, 2002. Editora Atos, p.50.
[15] Atos 1.8
[16] Atos 8.1
[17] Atos 8.4-5.
[18] CESARÉIA, Eusébio. História Eclesiástica. 1ª edição-Rio de janeiro: CPAD, 1999, pp. 99-101.

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