terça-feira, 30 de outubro de 2012

A BÍBLIA FALA SOBRE A DEPRESSÃO

"... não é pelo fato de crer em Deus que não esteja sujeito a tristezas. Devemos ter consciência de encontrar dificuldades na vida, devemos ser realistas em relação a ela. Jesus no Getsêmani, por exemplo, na tristeza, confiou no Pai e não se desesperou quando foi enfrentar seu sofrimento."

A BÍBLIA E A DEPRESSÃO (Salmos 43.1-5; 1 Reis 19.1-7.)

A depressão é muito difícil de definir, porém é muito comum na vida das pessoas. Alguém escreveu que “nunca houve época melhor, em toda história da humanidade, para uma pessoa se sentir infeliz.” Porém a depressão, que já foi chamada de “melancolia” tem sido reconhecida como uma situação comum há mais de três mil anos, em todas as partes do mundo e em todas as idades. Pessoas dos mais diversos níveis culturais já sofreram de depressão.

Depressão é difícil de definir, porque existem vários tipos de depressão e elas não são iguais em quantidade e qualidade, intensidade. Alguém definiu como um transtorno do humor, que influência todo o seu organismo, maneira de pensar e ver a vida. A depressão não é uma única coisa, mas muitas e a maneira que podemos ajudar alguém e nos ajudarmos vai exigir que desenvolvamos uma visão da sua origem, ou seja, o que pode estar causando esse sentimento ou tê-lo causado: É físico, psicológico, espiritual? Bem como precisamos da ajuda de Deus para entender o coração de uma pessoa deprimida.

O nome “depressão” não está na Bíblia. Entretanto, diversas passagens mostram pessoas que estavam em situação que expressaram seus sentimentos de tristeza e esperança: por exemplo, Salmos 69, 88, 102, 43, ou Elias em 1 Rs 19 e seu tratamento dado por Deus. Jeremias também escreveu um livro inteiro sobre lamentações. Jesus no getsêmani e sua angústia. (Mt 26.37-38). Ainda poderíamos citar Jó (Jo 3), Moisés (Nm 11.10-15).  Portanto, não podemos jamais dizer que uma pessoa deprimida esteja possessa por demônios. Não podemos tirar conclusões precipitadas.

A depressão se manifesta através de sentimentos de tristeza, desânimo, desamparo e inutilidade. Além destas podemos citar outras, como: apatia e inércia, que tornam difícil dar o passo inicial de tomar decisões; fadiga geral, acompanhada de perda de energia física e conseqüentemente pode tirar o interesse pelo trabalho, sexo, religião, passatempos; perda de apetite; baixa auto-estima acompanhada de sentimentos de inutilidade e derrota; dificuldade de concentração; Tensão e ansiedade, ansiedade acerca de tudo e acerca de nada afinal, uma ansiedade que não existia antes e sem explicação; Medo. Existe a depressão mascarada, em que a pessoa tem muito dos sintomas citados acima, mas que diz não se sentir triste. Ao ajudar alguma pessoa assim devemos estar atento, pois a pessoa, apesar de estar sorrindo, pode esconder por trás destes sintomas uma raiva reprimida, que a própria pessoa não admite e que, segundo a teoria tradicional, tem como alvo a própria pessoa.

A depressão pode ter diversas causas: físicas, por poucas horas de sono, sedentarismo, efeitos colaterais de medicamentos, doenças, má alimentação, TPM, depressão pós parto. Stress também pode levar a depressão (o stress é tudo aquilo que o homem criou para ele e não conseguiu atender, levando a uma ansiedade grave). Perdas também podem causar depressão: divórcio, morte, de uma oportunidade, de status, de bens. Ira, pecado e culpa. Conflito nos lares, entre pais e filhos, entre os conjugues.  

Seus efeitos podem ser percebidos através de: Infelicidade e ineficiência; Doenças físicas - pois a depressão por uma tristeza que acompanha o luto, por exemplo, tende a diminuir o sistema imunológico do corpo, tornando o nosso organismo aberto a doenças. Uma outra conseqüência é o retraimento e baixa auto estima, e até mesmo, pode levar ao suicídio.

EXISTE MEIO DE AJUDAR ALGUÉM COM DEPRESSÃO?

Sim, mas a melhora de uma pessoa neste estado não é de uma hora para outra.Devemos ter consciência de que não somos profissionais formados na área, e não ter receio de aconselhar alguém nesta situação procurar um profissional da área, um psicólogo. Porém também devemos ter consciência que a igreja deve ter um papel importante para ajudar estas pessoas a se restabelecerem, pois a igreja tem um ministério de consolo e de cura. Podemos ver alguns fatores para aconselhar alguém (ou a nós mesmos):

Doenças físicas: nem sempre a origem é espiritual, pode ser causada por uma enfermidade física. Neste caso, uma consulta e tratamento médico podem ser o suficiente.

Procuramos também entender as outras causas: problemas na família? Estresse? Modo de pensar (Fp 4.8); Ira? Falta de perdão? Hebreus fala da raiz de amargura, que perturba e contamina outros (Hebreus 12.14-15). Ansiedade?

Podemos também confiar em Deus, lembrando quando ele sempre diz em sua palavra “Não temas”. O fato de termos ciência de que Deus está no controle de tudo, nos traz esperança e confiança, mesmo diante das calamidades.  Porém não é pelo fato de crer em Deus que não esteja sujeito a tristezas. Devemos ter consciência de encontrar dificuldades na vida, devemos ser realistas em relação a ela. Jesus no Getsêmani, por exemplo, na tristeza, confiou no Pai e não se desesperou quando foi enfrentar seu sofrimento. Devemos entender sobre o que a Bíblia fala sobre o perdão.

Este tema, “depressão”, é muito complexo por isto incentivamos aos irmãos e leitores a lerem e ouvirem mais sobre o assunto, e entender o que a palavra de Deus diz a respeito deste tema, e como estas pessoas superaram isto.

Deus continue vos abençoando.

Ev. Alan

sábado, 27 de outubro de 2012

LUTERO ESCREVE SOBRE ORAÇÃO

LUTERO SOBRE A ORAÇÃO:

"A oração, entre outras, deve ser a nossa primeira ocupação da manhã e a última da noite. Saibamosdefender-nos contra os pensamentos enganosos que nos dizem: 'Deixa para mais tarde, ocupa-te de tal ou tal negócio e orarás depois'. Desse modo, troca-se a oração pelas ocupações, e depois que estas lançam mão de nós, não nos largam mais. Quando no fim de vossa súplica dizeis 'Amém', acentuai bem esse amém e de modo algum duvidai de que Deus ponha toda a sua graça em ouvir-vos e não responda 'sim' a vossa oração. Um bom barbeiro tem constantemente os olhos e os pensamentos fixos na navalha. Cada coisa, para ser bem feita, requer o homem inteiro. A oração também, para ser sincera, exige o coração inteiro."

Martinho Lutero.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O DISCIPULADO NA IGREJA PRIMITIVA - PERDEMOS ALGO QUE DEVEMOS ENCONTRAR?

O DISCIPULADO NA IGREJA PRIMITIVA - PERDEMOS ALGO QUE DEVEMOS ENCONTRAR?


“E todos os dias no templo e nas casas, não cessavam de ensinar e de anunciar a Jesus Cristo.” [1]

“O discipulado cristão é uma expressão vital da vida cristã. Ensiná-lo é imperativo; negligenciá-lo é trágico. (...) Com tal ênfase no Novo Testamento, não será verdade que a igreja cristã na pátria e no exterior falha porque negligência a essência da comissão de Cristo? Nós evangelizamos, realizamos conversões, mas falhamos quanto a fazer discípulos.” [2]

O Discípulo é literalmente um aprendiz, aquele que segue os ensinamentos de alguém.[3] Referente a Jesus, o discípulo não tem apenas a relação de professor e aluno, mas de plena confiança, onde o discípulo confia todas as áreas de sua vida nas mãos de seu mestre, que não é apenas seu professor, mas principalmente seu Senhor. Jesus chama de discípulos todos aqueles que permanecem em sua palavra.[4] Entretanto, discípulos não são feitos de uma hora para outra. Leva tempo.

Apesar de vivermos em um contexto cultural diferente da época dos apóstolos, os desafios permanecem os mesmos à evangelização em um mundo que é indiferente e hostil aos ensinamentos de Cristo. A necessidade de arrependimento e crer em Jesus Cristo para remissão dos pecados, como era a necessidade do mundo na época dos eventos registrados no livro de Atos dos Apóstolos são a mesma do mundo atual, e creio que o que está registrado nas páginas das Sagradas Escrituras é manual divino para todas as épocas, no papel de direcionar a igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo na sua tarefa de fazer discípulos de todas as nações.

Como eles desempenharam esta tarefa? Podemos ver claramente que os apóstolos seguiram o exemplo do Senhor Jesus em formar discípulos. Seus métodos de instrução e associação, que podemos chamar também de ensino e comunhão, estavam presentes no ministério dos apóstolos e dos primeiros cristãos:
“E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão e nas orações. (...) Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum.” [5]
“E todos os dias, no templo e nas casas, não cessavam de ensinar e de anunciar a Jesus Cristo.” [6]
“E sucedeu que todo um ano se reuniram naquela igreja e ensinaram muita gente. Em Antioquia foram os discípulos pela primeira vez chamados cristãos.” [7]

Através de textos como este, podemos perceber que discipulado é uma experiência única e também contínua, é crescer na graça e conhecimento do Senhor Jesus Cristo.[8] Pentecostes, citado no capítulo dois do livro de Atos, não gerou logo discípulos. Como Peters observou, não é dito nada sobre os discípulos nos cinco primeiros capítulos de Atos exceto que eram aplicados no estudo da Palavra, fiéis em suas amizades, fervorosos em suas orações e contribuíam muito e eram hospitaleiros. [9] 

A pregação, testemunho e ensinamentos eram reservados apenas aos apóstolos e apenas depois de os novos cristãos terem se acostumado ao meio de vida cristão conforme os ensinamentos dos apóstolos e fortalecendo as novas amizades entre os irmãos é que eles estavam prontos para agirem como testemunhas fiéis do Senhor. É muito importante que haja tempo, amizade e ensinamento no processo de discipulado.

A PRIMEIRA OPORTUNIDADE PARA APLICAR A LIÇÃO APRENDIDA

Tempo, amizade e ensinamento. Esses princípios usados pelo Senhor Jesus ao discipular os apóstolos, deveriam agora, direcionados e capacitados pelo Espírito Santo de Deus, ser usados pelos apóstolos na sua tarefa de fazer discípulos de todas as nações. E não demorou muito para que eles tivessem a primeira oportunidade para aplicarem as lições que haviam aprendido após três anos andando com Jesus, sendo discipulados pelo Senhor. Esses princípios aplicados pelos apóstolos são observados logo de início, diante do seu primeiro desafio de fazer discípulos logo após a primeira pregação realizada por Pedro após a poderosa manifestação do Espírito Santo batizando aqueles que estavam esperando, conforme Jesus orientou[10]. Havia um grande número de convertidos que agora precisavam ser discipulados:

“De sorte que foram batizados os que de bom grado receberam a sua palavra; e, naquele dia, agregaram-se quase três mil almas.” [11]
Após a poderosa e ungida pregação de Pedro, o resultado da ação do Espírito Santo através da pregação da Palavra gerou três mil novos convertidos, três mil bebês espirituais, que precisavam ser alimentados; eram três mil novas vidas que precisavam ser discipuladas. Como os apóstolos agiram diante deste desafio, sendo que dentro de poucos dias muitos destes convertidos judeus voltariam para suas nações de origem? Não podemos esquecer-nos do que diz o texto sagrado:

“E em Jerusalém estavam habitando judeus, varões religiosos, de todas as nações que estão debaixo do céu. E correndo aquela voz, ajuntou-se uma multidão e estava confusa, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua. E todos pasmavam e se maravilhavam, dizendo uns aos outros: Pois quê! Não são galileus todos esses homens que estão falando? Como pois os ouvimos, cada um, na nossa própria língua em que somos nascidos? Partos e medos, elamitas e os que habitam na Mesopotâmia, e Judéia, e Capadócia, e Ponto e Ásia, e Frígia, e Panfília, Egito e partes da Líbia, junto a Cirene, e forasteiros romanos (tanto judeus como prosélitos), e cretenses, e árabes, todos os temos ouvido em nossas próprias línguas falar das grandezas de Deus.” [12]

Os apóstolos criaram condições emergenciais para que antes de voltarem para suas nações, estes novos convertidos fossem discipulados, para que conhecessem mais ao Senhor:

“E perseveraram na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações. Em cada alma havia temor, e muitas maravilhas e sinais se faziam pelos apóstolos. Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e fazendas e repartiam com todos, segundo cada um tinha necessidade. E perseveravam unânimes todos os dias no templo e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e caindo na graça de todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar.” [13]

Como observamos anteriormente, após este relato de Lucas, nada é mais dito acerca destes novos discípulos até o capítulo seis, e a questão dos sinais e maravilhas e ensino era feitos pelos apóstolos. (Atos 2.42), não pelos novos discípulos. Estes apenas aprenderam tudo, ouvindo e observando o exemplo dos apóstolos. Eles cresceram como crianças recém-nascidas, observando tudo e ouvindo atentamente, para depois imitar. Nasceram e foram criados em um ambiente de comunhão e instrução.

No discipulado, comunhão e ensino andam juntos, pois o discípulo aprende pelo exemplo de seu mestre, do discipulador. Sejamos atentos ao que diz o relato das Escrituras Sagradas: Eles ouviam o ensino dos apóstolos e viam seus exemplos, que podem ser listados segundo Leroy Eims[14]:

1.      Aprenderam a perseverar em meio às perseguições por causa do evangelho (Atos 4.17; 5.18, 40);
2.      Aprenderam como os apóstolos pregavam o evangelho em todas as oportunidades (At 3.14, 15; 4.10, 33; 5.30, 31);
3.      Aprenderam como os apóstolos a reagir com alegria diante da perseguição pelo nome de Cristo (At 5.41).

O DISCIPULADO BÍBLICO PRODUZ CRISTÃOS QUE DARÃO CONTINUIDADE A OBRA DE CRISTO.

Este ambiente que eles foram discipulados, de comunhão, ensino e tempo, debaixo da capacitação do Espírito Santo, gerou discípulos que seriam produtivos em agirem como testemunhas de Jesus Cristo. Não podemos esquecer que ser testemunha de Jesus Cristo é o ponto de vista principal que devemos interpretar todo o relato do livro de Atos dos apóstolos, que bem pode ser chamado dos “Atos do Espírito Santo”:

“Mas recebereis a virtude do Espírito Santo que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até os confins da terra.” [15]

            Quem deu continuidade à ordem de Cristo, de testemunhar em Judéia e Samaria? Os apóstolos? Não, foram os novos discípulos, após o início da perseguição por causa de Estevão, liderada por Saulo:

“E também Saulo consentiu com a morte dele. E fez-se, naquele dia, uma grande perseguição contra a igreja que estava em Jerusalém; em todos foram dispersos pelas terras da Judéia e da Samaria, exceto os apóstolos.” [16] 

Judéia e Samaria foram evangelizadas pelos novos discípulos, em meio à perseguição. O modo como reagiram com fé diante da perseguição mostra que os discípulos aprenderam bem a lição com os apóstolos. Eles não saíram em fuga desesperadamente, e sem olhar para os lados ou para trás. Muito menos abandonaram a Cristo, antes o anunciava em todas as oportunidades:

“Mas os que foram dispersos iam por toda a parte anunciando a palavra. E descendo Filipe a cidade de Samaria, lhes pregava a Cristo.” [17]

Porém, eles só agiram deste modo observando o exemplo pessoal de seus líderes. Apenas seguiram o exemplo pessoal dos apóstolos, que os discipularam, em um ambiente marcado pela ação do Espírito Santo, amizade e comunhão constante entre os irmãos e ensino sólido da Palavra de Deus. Levou tempo, mas este discipulado gerou discípulos que levaram a efeito a continuidade da ordem de Cristo Jesus de serem suas testemunhas, de fazer discípulos de todas as nações.

Elementos como estes apresentados no ambiente do discipulado da igreja primitiva, bem como exemplos pessoais para serem seguidos estão de certa forma, escassos no meio cristão atual, porém, Deus não se deixa sem testemunho, e tem sempre os “sete mil” que não se dobram e não se rendem diante do esfriamento a apostasia espiritual característicos destes últimos dias. Oremos para que em cada cristão, seja ele ministro líder ou leigo, bem como em suas comunidades, estejam presente estes princípios como estes registrados nas Escrituras, bem como este testemunho pessoal, sobre o apóstolo João, sobre o amor e o cuidado para discipular uma vida só, que Eusébio ainda nos faz ouvir até hoje através do testemunho da história:

Também Clemente, indicando a época, acrescenta uma narrativa digna de maior aceitaçãonpara os que se deleitam em ouvir o que seja excelente e proveitoso naquele discurso a que deu o título “Quem é o Homem Rico salvo?” Tomando, pois, o livro, lede-o onde contém uma narrativa semelhante a esta: “Ouvi uma história que não é fictícia, mas história verdadeira, transmitida e preservada com cuidado, a respeito do apóstolo João. Eis que após a morte do tirano, vindo da ilha de Patmos para Éfeso, ia também, quando chamado, às regiões vizinhas dos gentios: a algumas para nomear bispos, a algumas para instituir igrejas inteiramente novas, a outras para nomear para o ministério alguns daqueles que eram destacados pelo Santo Espírito. Chegando, pois, a uma dessas cidades, não muito longe, da qual alguns também dão o nome, e tendo em outros aspectos consolado seus irmãos, por fim voltou-se para o bispo ordenado (destacado) e, vendo um jovem de boa estatura, feição graciosa e mente ardente, disse: ‘Este vos recomendo com toda diligência na presença da igreja e de Cristo’. O bispo tendo-o tomado e tudo prometido, repetiu e testificou a mesma coisa e depois retornou a Éfeso. O presbítero levou para casa o jovem que lhe foi confiado, ensinou-o, disciplinou-o e cuidou dele e no fim o batizou. Depois disso relaxou no exercício de seu cuidado e vigilância anterior, como se tivesse confiado a uma salvaguarda perfeita no selo do Senhor. Mas certos jovens vadios de e dissolutos, familiarizados com todo tipo de perversidade, infelizmente ligaram-se a ele e assim o livraram prematuramente das restrições. Primeiro eles o desviaram mediante diversões dispendiosas. Depois, saindo à noite para roubar, levaram-no com eles. Em seguida,. O incentivaram a fazer algo maior e, gradualmente acostumado a seus modos em seu espírito empreendedor, como um corcel descontrolado e forte desviado do caminho certo, rompendo os arreios, lançou-se com maior ímpeto no precipício. No final, renunciando à salvação de Deus, não planejava ofensas menores, antes, tendo cometido algum grande crime, estando então totalmente arruinado, esperava sofrer igualmente com o resto. Assim, tomando os mesmos companheiros e formando com eles um bando de ladrões, tornou-se seu chefe, sobrepujando-os em toda violência, sangue e crueldade. O tempo passou e, em certa ocasião, chamaram João. O apóstolo, depois de acertar aquelas outras questões pelas quais tinha vindo, disse: ‘Vem, bispo, devolve-me o depósito que eu e Cristo confiamos a ti na presença da igreja da qual presides’. O bispo de início ficou confuso, pensando que estava sendo traiçoeiramente extorquido por um dinheiro que não recebera; mas não podia dar crédito com respeito ao que nunca tivera nem ainda desacreditar João. Mas quando ele disse: ‘Peço o jovem e a alma de um irmão’, o velho homem, gemendo alto e também chorando disse: ‘Ele morreu’. “Como e com que morte?” ‘Está morto para Deus’, disse ele. ‘Tornou-se perverso e devasso e por fim ladrão; e agora, em lugar da igreja, tomou a montanha com um bando semelhante a ele. ’ O apóstolo, ouvindo isso, rasgou as suas vestes e, batendo a cabeça com grande em grande lamento, disse: ‘Deixei um bom guardião para a alma a alma de um irmão! Mas prepare-se um cavalo e alguém que me guie o caminho’. Ele cavalgou como estava, saindo da igreja e, chegando ao lugar, foi feito prisioneiro pela guarda dos bandidos. Ele, porém não tentou fugir nem recusou-se a ser levado; antes clamou; ‘Para isso mesmo vim: conduzi-me a vosso chefe’. Ele enquanto isso esperava, armado como estava. Mas ao reconhecer João adiantando-se em sua direção, voltou-se para fugir, tomado de vergonha. O apóstolo, porém, perseguiu-o com todo o empenho, esquecendo-se da idade e gritando: ‘ Por que foges, meu filho, de mim, teu pai idoso, indefeso? Tem compaixão de mim meu filho; não temas. Tens ainda esperança de vida. Intercederei por ti a Cristo. Sendo necessário, de bom grado morrerei por ti, como Cristo morreu por nós. Darei a minha vida pela tua. Fica, crê que Cristo me enviou’. Ouvindo isso, ele primeiro parou olhando para baixo. Depois lançou fora as armas e, então, tremendo, lamentou amargamente e, abraçando o velho homem que se adiantou, tentou rogar por si mesmo com toda lamentação de que era capaz; como que batizado pela segunda vez com as próprias lágrimas, escondendo apenas sua mão direita. Mas o apóstolo garantindo-lhe e prometendo-lhe solenemente que havia encontrado perdão para ele em suas orações nas mãos de Cristo, orando de joelhos e beijando aquela mão direita como se purificada de toda iniqüidade, conduziu-o de volta para a igreja. Então, suplicando com freqüentes orações, contendendo com constantes jejuns e abrandando-lhe a mente com várias declarações consoladoras, não o deixou, conforme se diz, até restaurá-lo a igreja. Proporcionando um exemplo poderoso de verdadeiro arrependimento e uma grande prova de uma regeneração, um troféu de ressurreição visível”.[18]

Autor: Alan G. Sá. 




[1] Atos 5.42
[2]  PETERS, George W. Teologia Bíblica de Missões. Rio de janeiro: CPAD, 2000, p. 223.
[3] Mathetes (maqhthz), literalmente, “aprendiz” (derivado de manthanõ, “aprender”, proveniente de uma raiz math-, que indica pensamento acompanhado por esforço).
[4] João 8.31; 13.35; 15.8.
[5] Atos 2.42, 44.
[6] Atos 5.42.
[7] Atos 11. 36.
[8] PETERS, George W. Teologia Bíblica de Missões. Rio de janeiro: CPAD, 2000, p.230.
[9] Idem, p. 230.
[10] Atos 1.4,5; 2ss.
[11] Atos 2.41
[12] Atos 2.5-11.
[13] Atos 2.42-47.
[14] EIMS, LeRoy. A arte perdida de fazer discípulos. Belo Horizonte, 2002. Editora Atos, p.50.
[15] Atos 1.8
[16] Atos 8.1
[17] Atos 8.4-5.
[18] CESARÉIA, Eusébio. História Eclesiástica. 1ª edição-Rio de janeiro: CPAD, 1999, pp. 99-101.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A REFORMA PROTESTANTE

 "A causa teológica da Reforma foi o desejo dos reformadores de voltar á fonte clássica da fé cristã, a Bíblia, a fim de refutar o ensino da teologia tomística segundo a qual a salvação era obtida através dos sacramentos da graça ministrados pela hierarquia."
 
1. A REFORMA PROTESTANTE E SUAS INTERPRETAÇÕES
Por Joaquim, Marcos José e Alan, alunos do 3º ano da FAESP.

Não há como negar a influência da Reforma Protestante em nosso século. Qualquer livro de história que aborde o tema: “Baixa Idade Média e início da Idade Moderna”, tem, obrigatoriamente, a necessidade de discorrer sobre um dos principais marcos dessa época: a Reforma Protestante, liderada pelo Monge da ordem dos agostinianos Martinho Lutero. Embora seja extremamente velho (pouco mais de 500 anos), trata-se, porém, de um tema ainda vivo e em debate hoje em dia.
Mas o que é a Reforma Protestante? Por que começou? Quais formas suas principais causas? Quem foram seus líderes? Todas essas explicações são influenciadas pela interpretação que os historiadores dão a Reforma Protestante. A ênfase sobre um ou outro fator histórico depende da escola de interpretação.

1.1 Os historiadores Protestantes

Interpretam a Reforma como um movimento religioso que procurou redescobrir a pureza do cristianismo primitivo como descrito no Novo Testamento. Esta interpretação tende a ignorar os fatores econômicos, políticos e intelectuais que ajudaram a promover a Reforma.

1.2 Os historiadores católicos Romanos

Interpretam a Reforma como uma heresia inspirada por Martinho Lutero por interesses
Pessoais, entre eles, a sua vontade de casar. O protestantismo é visto como um cisma herético que destruiu a unidade teológica e eclesiástica da Igreja Medieval. Os historiadores Romanos se esqueceram que no período da reforma, muitas barbaridades e anomalias foram vistas dentro da Igreja Romana, gerando muitos protestos que não foram atendidos e que finalmente resultaram na Reforma.

1.3 Os historiadores Seculares

Dão mais atenção aos fatores secundários em sua ótica sobre a Reforma. O historiador Voltaire ilustra muita bem a interpretação racionalista. Para ele, a Reforma Protestante foi apenas a conseqüência de uma briga de monges da Saxônia e, na Inglaterra, a Reforma religiosa não deixou de ser apenas resultado de um caso de amor de Henrique VII. É claro que tais conjecturas fazem parte da História. Mas resumir, de tão nobre movimento, pelos quais pessoas sacrificaram suas próprias vidas, que somente essas ocorrências seriam suficientes é falta de vontade de analisar exegeticamente os fatos.

1.4 Os historiadores Marxistas

Determinam que a Reforma aconteceu devido a questões econômicas. Ela é vista como resultado da tentativa do papado romano de explorar economicamente a Alemanha para lucro próprio. Seria o resultado da oposição de nações-estado a uma igreja internacional. Para eles, a reforma foi um simples episódio político de origem nacionalista.
Embora haja elementos de verdade em todas as interpretações, é preciso, porém, notar que suas ênfases, em geral, recaem sobre causas secundárias e, quase sempre, uma causa secundária particular. A Reforma não se explica de maneira tão simplória. Suas causas são múltiplas e complexas.

2. AS CAUSAS DA REFORMA PROTESTANTE
Analisando todo o contexto da época da reforma, podemos definir os seguintes fatores como causa da reforma protestante:

2.1 O fator político.

Pode-se considerar o fator político uma das causas indiretas importantes para a eclosão da Reforma. As novas nações-estado centralizadas no noroeste da Europa se opunham à noção de uma igreja universal que reivindicava jurisdição sobre a nações- estado e seu poderoso governante. O ideal universal colidia com a consciência nacional emergente das classes desses novos estados.
Esse problema político elementar tornou-se mais complicado por questões específicas. É bom lembrar que as nações que aceitaram o protestantismo durante a reforma estavam localizadas fora da órbita do velho Império Romano, cujas poderosas classes médias tinham uma ótica cultural diferente das nações latinas.
Os governantes dessas nações-estado rejeitavam a jurisdição do papa sobre seu território; jurisdição esta temporal e espiritual, uma vez que a Igreja Romana possuía grandes propriedades de terra em toda a Europa.
O governo nacional e sua administração civil se opunham á hierarquia religiosa internacional da Igreja Romana. No caso da Inglaterra, o rompimento de Henrique VIII com a Igreja de Roam aconteceu devido à discussão se o divórcio do rei era um assunto internacional para o papa decidir ou era um problema nacional que o clero resolveria.

2.2 O fator econômico.

Esse fator não pode ser descartado pelo historiador cristão, mesmo que não aceite a interpretação materialista de Marx ou dos economistas deterministas. As terras da Igreja Romana na Europa ocidental eram cobiçadas pelos governantes nacionais, pela nobreza e pela classe média das novas nações-estado. Os governantes lamentavam a perda do dinheiro enviado para o tesouro papal em Roma. Ademais, o clero estava isento dos impostos dos estados nacionais.

2.3 O fator intelectual.

O fator intelectual na Reforma deve-se à postura crítica adotada por homens de mentes lúcidas e secularizadas diante da vida religiosa dos seus dias como proposta pela Igreja Católica Romana.
Ao aumentar numericamente, a classe média tornou-se individualista e começou a se revoltar contra o conceito corporativista de sociedade medieval que colocava o indivíduo debaixo de autoridade.
O humanismo da Renascença, especialmente na Itália, criou um espírito secular semelhante àquele que caracterizou a Grécia clássica. Mesmo os papas da renascença assumiriam esse modo de vida intelectual e secular. Esse espírito e essa abordagem surgiram do interesse dos estudiosos em voltar às fontes do passado intelectual do homem. Ao comparar a sociedade hierárquica corporativa em que viviam com a liberdade intelectual e o secularismo da sociedade grega, associados ao princípio de liberdade proposto pelas Escrituras, as pessoas duvidavam da validade das pretensões da Igreja de Roma e de seus líderes. Começaram, então, a enxergar horizontes intelectuais mais amplos. O interesse das pessoas era agora mais pela vida secular do que pela religiosa.

2.4 O fator moral.

O fator moral da Reforma está intimamente relacionado ao intelectual. Os estudiosos humanistas, que possuíam o Novo Testamento em grego, perceberam logo as discrepâncias entre a Igreja da qual liam no Novo Testamento e a Igreja Católica Romana que viam. A corrupção atingira todos os escalões da hierarquia da Igreja Romana. Os clérigos compravam e vendiam cargos livremente. Muitos tinham sinecuras que permitiam receber salários sem prestar a assistência religiosa que deviam. Muitos ocupavam vários cargos de uma vez, como Alberto de Mainz, cujo representante, de nome Tetzel, recebeu de Lutero uma dura oposição na Saxônia.

2.5 Mudança na estrutura social.

Mudanças na estrutura social aumentaram a decepção das pessoas com a Igreja Romana. O surgimento das cidades e de uma próspera classe média urbana criou um espírito novo de individualismo. A nova economia do dinheiro libertou os homens da dependência do solo como principal meio de vida. Os membros da classe média não eram tão dóceis como haviam sido seus antecessores feudais, e mesmo da classe média não eram tão dóceis como haviam sido seus antecessores feudais, e mesmo os artesãos das cidades e os lavradores começaram a entender que nem tudo estava bem numa ordem social em que eram oprimidos por uma minoria. A insatisfação social e a premência de uma mudança forma um fator social fundamental na irrupção da Reforma.

2.6 O fracasso da Igreja Romana em cumprir seu papel.

O fracasso da Igreja em satisfazer as reais necessidades do povo constituiu o fator teológico ou filosófico da Reforma. Alguns dão tanta ênfase a esse elemento que parecem ver a Reforma apenas como uma luta entre a Teologia de Tomás de Aquino e a de Agostinho. Realmente, a Igreja Medieval adotou a filosofia de Tomás de Aquino, que não ensinava estar à vontade do homem totalmente corrompida. Pela fé e pelo uso dos meios de graça nos sacramentos ministrados pela hierarquia, o homem poderia alcançar a salvação.
Agostinho cria que à vontade do homem estava corrompida de tal modo que ele nada poderia fazer pela sua salvação. Deus outorgava a graça ao homem para dinamizar a sua vontade a fim de que pudesse pela fé, aceitar a salvação que Jesus oferecia.
A causa teológica da Reforma foi o desejo dos reformadores de voltar á fonte clássica da fé crista, a Bíblia, a fim de refutar o ensino da teologia tomística segundo a qual a salvação era obtida através dos sacramentos da graça ministrados pela hierarquia.


2.7 Lutero: O Grande Líder da Reforma.

Geralmente, quando uma inquietação se torna de tal modo extensa diante das dificuldades que os homens enfrentam, as suas insatisfações se expressam através de algum grande líder que veicula suas idéias. A igreja Católica Romana quando tornou-se incapacitada de reformar a si mesma ou aceitar a Reforma, abriu as portas para o surgimento de um líder disposto a fazer as Reformas necessárias.
Esse foi o papel de Martinho Lutero, que encarnou bem o espírito da Reforma, especialmente na insistência desta sobre o direito do indivíduo em ir diretamente a Deus através de Cristo, conforme ensinado nas Escrituras.
O escandaloso abuso que era o sistema de indulgências na Alemanha foi a causa direta da eclosão da Reforma nesse país.
A Reforma não foi um acontecimento isolado, mas esteve intimamente ligada à Renascença e a outros movimentos que forçaram o nascimento da era moderna no sécuo XVI.
As igrejas protestantes que surgiram desse levante eram diferentes daquelas que se separaram da Igreja Medieval, mas todas tinham a Bíblia como autoridade final. Lutero conservou na liturgia muitas práticas não proibidas pela Bíblia. A Igreja Anglicana distanciou-se um pouco mais que os Luteranos do ritual e da prática Medieval; mas deve-se salientar que tanto essa como aquela rejeitavam o sistema sacramental hierárquico da Igreja Romana. As igrejas reformadas e presbiterianas, que seguiram Calvino na França, Holanda, Escócia, Suíça e Hungria, refutaram todas as práticas que não entendiam estar de acordo com o Novo Testamento. Os anabatistas fizeram a ruptura mais radical de todos os grupos reformadores, ao procurar criar uma igreja de crentes por vontade própria modelada segundo os padrões das Igrejas do Novo Testamento. Apenas os povos de origem teutônica no norte e no oeste da Europa aceitaram a Reforma; as nações latinas do sul da Europa em geral continuaram fiéis ao papa e a doutrina do mérito. A Reforma provocou mudanças vitais que fizeram com que uma Igreja católica Romana universal fosse substituída na Europa Ocidental por igrejas nacionais. Essas igrejas tornaram a Bíblia como autoridade final e entendiam que não era necessário nenhum mediador humano entre o homem e Deus para a obtenção da salvação, já adquirida por Cristo na Cruz para todos.



3. BREVE RESUMO DA VIDA DE MARTINHO LUTERO

No dia 10 de novembro de 1483, em Eisleben, cidadezinha da Turíngia, no antigo condado de Mansfeld, uma criança veio ao mundo. Não despertou a atenção do povo nem dos grandes da terra, mas exercia nestes e naquele a poderosa influência de quem transformou o mundo político e religioso. Essa criança era Lutero, o reformador da Alemanha.
Erfurt era a mais afamada das universidades alemãs. Lutero tinha dezoito anos de idade quando seu pai o enviou para lá, em 1501. Jovem de mente aberta a ávido pela instrução, estudou filosofia, ciência que era a base de todas as outras e que abrangia as leis e a forma do pensamento, bem como as línguas, a gramática, a retórica, a história natural e a astronomia.
Lutero estudava com tanta dedicação que no final do terceiro semestre, em 1502, obteve o grau de bacharel. A cerimônia de colação, acompanhando o costume da época, foi revestida de grande pompa, uma festa magnífica.
Apesar de se dedicar aos estudos e de se divertir com os amigos, Lutero era perseguido pelo temor da morte e do julgamento futuro. Sentia um profundo desejo de se tornar piedoso e de satisfazer a justiça divina, por isso jamais iniciava sem orar e sem ir à missa. Costumava rogar a Deus que o abençoasse nos estudos, pois acreditava que orar significava adiantar metade do trabalho. Sempre que tinha tempo, rumava para a biblioteca da universidade e ali mergulhava na leitura de autores antigos.
Um dia, quando tinha por volta de vinte anos, abriu um livro que lhe era desconhecido: a Bíblia. Até então somente havia lido das Escrituras as porções dos evangelhos e das epístolas inseridas no missal. Isso porque a leitura do Livro Santo, que haveria de exercer tão grande influência em sua vida, era proibida pelos padres.
Em junho de 1505, passou alguns dias em Mansfeld, em casa dos pais, ou com a esperança de encontrar ali a tranquilidade e a paz que sempre lhe fugiam, ou para sondar os sentimentos do pai acerca da vida em clausura. Todavia, qualquer que fosse o motivo, o certo é que ao retornar de Mansfeld, um imprevisto determinou qual seria sua vocação.
Caminhava o jovem por uma estrada deserta, quando desabou um terrível temporal. O céu parecia incendiado, e os raios rasgavam as nuvens a toso instante. De repente, Lutero se viu envolto na tempestade e um raio caiu bem a seu lado. Nesse momento, sentiu-se perdido e , transtornado pelo medo ao ver o inferno representado diante de seus olhos, prostou-se em terra e gritou: “Ó santa Ana! Salva-me e me tornarei monge!”. Na mesma noite, 17 de agosto de 1505, ele deixou a sua morada e dirigiu-se ao convento dos agostinianos. Bateu à porta, e esta abriu-se para fechar-se em seguida por trás de um Martinho Lutero transformado agora em um frade agostiniano.
Lutero, o festejado professor, a glória da universidade, entrara para o convento! Ele, que passava os dias a estudar e as noites debruçado sobre os livros, agora submetia-se às regras severas do mosteiro: carregar água, varrer a igreja e as celas dos monges, abrir e fechar as portar e – o que lhe era mais penoso- mendigar.
Confessava-se pelo menos uma vez por semana e com tantas minúcias que até o padre, em muitas ocasiões, achava-se que ele ia longe demais. Lutero lembra: “Cansávamos nossos confessores, e eles nos deixavam espantados com aquela absolvição condicional: “Eu te absolvo pelos méritos de nosso Senhor Jesus Cristo, da Virgem Maria, de tosos os santos de nossa ordem, por causa da confissão de tua boca, da contrição de teu coração e das boas obras que fizeste e ainda farás”.
A absolvição concedida pelo padre não era suficiente. Era necessário ainda que o penitente merecesse o perdão à custa de orações, jejuns, esmolas e contrições. Pois, tão certo como ia para o inferno quem não se confessasse, aquele que não fizesse penitência teria de passar pelo purgatório. Lutero, porém, quanto mais sondava a si mesmo e se confessava, mais se sentia atormentado pela consciência.
Analisando sua vida no convento, Lutero confessou:

Eu era o homem mais miserável da terra. Dia e noite eram gritos e desespero, e ninguém podia ajudar-me. Se um monge pudesse ganhar o céu por suas práticas fradescas, com certeza eu o teria ganho. Todos os religiosos que me conheceram podem dar testemunho disso. De tivesse ficado mais tempo ali, eu me haveria martirizado até morrer, por causa de tantas macerações. Rodeado de trevas, não achava paz em parte alguma.

Foi mais ou menos nessa época que Staupitz,[1] vigário-geral da ordem dos agostinianos na Alemanha, visitou o convento de Erfurt. Era um padre bondoso, amante do evangelho, que deplorava os erros da Igreja Romana e a desmoralização do clero, mas, desejava a paz acima de tudo, por isso era incapaz de usar meios enérgicos para promover uma reforma. A expressão triste e abatida do jovem monge atraiu-lhe a atenção. Desejou falar-lhe em particular. Lutero, animado pela benevolência do vigário-geral, abriu o coração. Falou de sues esforços inúteis para alcançar a santidade: “De que me serve ter entrado para o convento? Todas as minhas boas obras são inúteis”.
Staupitz deu uma Bíblia a Lutero, que desde esse momento empenhou-se na leitura, meditando principalmente nas passagens que falavam da graça de Deus: “O justo viverá pela fé”;[2] “Teria eu algum prazer na morte de ímpio? Palavra do Soberano, o Senhor. Ao contrário, acaso não me agrada vê-lo desviar-se dos seus caminhos e viver?”.[3]
A obra, porém, não podia completar-se em um dia. Lutero tornou-se a passar pelo desânimo e pela dúvida. “Não sou digno de que deus me conceda tamanha graça!”, pensava. “Ah! Como é maravilhoso crer na sua misericórdia!” Somente no decorrer do terceiro ano de sua estada no convento, Lutero conheceu a paz que flui da fé.
Lutero completara 25 anos quando Staupitz o nomeou professor em Wittenberg, no ano de 1508. Prestou exames em 1509 e foi aprovado, recebendo o primeiro grau em Teologia, o bacharelado bíblico, título que lhe conferia a licença de lecionar as Escrituras Sagradas. Mal havia começado, chamaram-no para ser professor da Universidade de Erfurt. Ficou ali três semestres e depois voltou para Wittenberg, porém por pouco tempo. Em 1511, Staupitz escolheu-o para ir a Roma em companhia de outro monge a fim de submeter à consideração do papa as questões pendentes entre alguns conventos agostinianos.
Considerava Roma cidade Santa, não somente porque havia sido regada com sangue dos mártires, mas por ser a morada do chefe da igreja, o representante de Cristo na terra.
Apesar de versado nas escrituras e de haver aceitado a salvação gratuita, Lutero continuava fiel adepto da Igreja Romana. Acreditava firmemente nas tradições e em todos os milagres que ouvia contar. Encontrara a luz, porém as trevas ainda lhe obscureciam a mente. “Depressa, depressa! Vê se acabas de uma vez!”, gritava outro.
Lutero, que imaginava Roma o santuário da piedade, ficou horrorizado com o luxo das igrejas e dos conventos, com a ostentação dos prelados e com a degradação moral e a corrupção que reinavam não somente no povo, mas também no meio do clero e nas ordens monásticas. “Não consigo nem sequer pensar nisso sem estremecer!”, diria mais tarde.
Conta também Lutero que, entre outras infâmias proferidas à mesa pelos cortesãos, ouvia-os comentar, rindo, a forma que as missas eram celebradas. Consagrando o pão e o vinho, diversos padres pronunciavam estas palavras, latim: “Pão és, pão ficarás; vinho és; vinho ficarás”.
O papa Júlio II, recém-chegado de uma guerra , em que se havia derramado muito sangue, residia então em Roma e ocupava-se da construção da basílica de São Pedro.
Lutero, apesar de tudo, continuava suas devoções e peregrinações. Um dia, subindo de joelhos a escada de Pilatos – ato que devia fazê-lo merecedor de indulgência plenária[4] -, ressoou-lhe nos ouvidos como voz de trovão a passagem da epístola ao Romanos na qual havia meditado: “O justo viverá pela fé”. Atingido na consciência, parou e levantou-se de repente. Não acabou a peregrinação.
Ele aproveitou a estada na Itália para tomar lições de hebraico com um célebre rabino. Mas a viagem a Roma foi-lhe de importância crucial: levou-o a conhecer a incredulidade insolente e o sarcasmo escondidos por trás das superstições romanas. O véu caiu, e com isso a fé viva que ele depositava no Salvador fortaleceu-se poderosamente, tornando-se o meio de que Deus se serviu para reformar a igreja.
“Não trocaria por mil florins a minha viagem a Roma”, declararia mais tarde, “porque temeria julgar mal o papa, enquanto agora só digo o que vi”.
Após os exames e as formalidades de costume, Lutero recebeu em 4 de outubro de 1512 o grau de licenciado em teologia. Poucos dias depois foi elevado à dignidade de doutor em teologia. Recebeu as insígnias diante de uma assembléia numerosa e prometeu defender a verdade evangélica e opor-se a qualquer doutrina não aprovada pela igreja. A obediência ao papa não era exigida em Wittenberg, e esse juramento solene foi para Lutero a sua consagração como reformador.
O novo doutor começou logo a ensinar lições bíblicas. Abriu o curso com Salmos, depois explicou as epístolas de Romanos e Gálatas, livros que exerceram poderosa influência em sua conversão. Além dos cursos na universidade, foi encarregado também da instrução teologia dos monges. Sua fama espalhou-se, atraindo de longe novos religiosos a Wittenberg. O convento quase não podia hospedar a todos, e muitas vezes faltava dinheiro para as despesas.
O mosteiro, que nunca fora acabado, tinha somente uma pequena capela em ruínas. Foi nesse acanhado recinto que Lutero passou a pregar o evangelho. Em 1516, foi nomeado pregadoar da cidade de Wittenberg. Cumpriu essas diversas funções com energia, fidelidade e zelo. Às vezes tinha de pregar todos os dias da semana e até três vezes num único dia. Na Quaresma, pregava duas vezes por dia, sem no entanto deixar de cumprir os compromissos com a universidade.
A luz do evangelho ocupou enfim o lugar das trevas. Lutero esforçava-se por conduzir seus ouvintes ao filho de Deus, mostrando-lhes a diferença entre a lei e a graça e a incapacidade do homem para expiar os pecados e tornar-se justo pelos próprios esforços. Assim como João Batista, o precursor do Messias, Lutero conduzia seus discípulos ao Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Não se dava conta de que, pregando a salvação gratuita, fazia oposição direta à Igreja Romana, nem de que seria chamado a sustentar uma guerra por essa doutrina e a lançar os fundamentos de uma nova igreja. Em suas primeiras pregações, Lutero inspirou-se nas tradições da época, citando autores antigos e os pais da igreja. No entanto, logo os descartou para deixar-se guiar unicamente pelo evangelho. O rio poderoso e vivificante de eloqüência cristã que fluía livremente de seus lábios fez dele o primeiro pregador da época.
Em 1516 e 1517, pregou na paróquia de Wittenberg uma série de sermões sobre a Oração Dominical e sobre os dez mandamentos e a relação deste com o evangelho. Em 1517 publicou um comentário dos salmos penitenciais.
O motivo da luta religiosa que culminou na cisão da igreja foi a construção da basílica de São Pedro, em Roma. Leão x, que sucedeu ao papa JúlioII em 1513, lançou-e a esse empreendimento, iniciado na é poça da viagem de Lutero a Roma.O novo pontífice, muito amigo das artes, não teve escrúpulos em recorrer a um tráfico vergonhoso para angariar o dinheiro necessário à construção e à suntuosa decoração do edifício que, segundo a tradição, guardava os ossos dos santos apóstolos Pedro e Paulo. Desde o século VI, as punições eclesiásticas podiam ser pagas com esmolas e legados cedidos por razões de caridade. Mas foram os papas contemporâneos de Lutero, Júlio II e Leão X, que com mais afinco recorreram às indulgências a fim de obter dinheiro, e por meio desse expediente recolheram na Alemanha somas fabulosas.
Este era o princípio em que se assentavam as indulgências: a igreja alegava possuir um tesouro de méritos provenientes das boas obras de Cristo e dos santos, e o papa, como chefe da igreja e representante do filho de Deus, odia dispor dessas riquezas. A responsabilidade era confiada ao vendedor de indulgências, o qual sem dúvidas exigia do penitente o arrependimento e a mortificação interior. O dinheiro, a princípio, apenas livrava o penitente dos castigos infligidos pelo confessor.
Aos poucos, no entanto, o arrependimento foi esquecido. O vendedor de indulgências, nos seus reclamos e pregações, passou a insistir cada vez mais na necessidade da contribuição com dinheiro. O arcebispo fez a concessão desse comércio aos dominicanos e nomeou para comissário João Tetzel, monge de má reputação e tido como imoral. Os escritores da época descrevem a pompa com que o comissário fazia a sua entrada nas cidades. Enquanto todos os sinos tocavam, padres, monges, doutores, estudantes e a população inteira, portando bandeiras e velas, iam cantando ao encontro dele.
O cortejo entrava na igreja ao som do órgão. Diante do altar-mor era colocada uma grande cruz vermelha, da qual pendia uma bandeira com as armas papais e ao lado dela a caixa destinada a receber o dinheiro. As pregações diárias, os cânticos e as procissões ao redor da cruz impressionavam o povo, que se apressava a aproveitar aquela oportunidade incomparável de salvação. A confissão das multidões era feita às pressas, pois o objetivo não era a conversão, mas, sim, o dinheiro. Quem se opusesse à venda de indulgências era ameaçado de excomunhão. Muitos admiravam-se de que Deus amasse tanto o dinheiro a ponto de abandonar as almas no purgatório pelo não-pagamento de alguns florins e que o papa não livrasse de uma vez todas as almas,já que libertava parte delas a favor da construção de uma catedral. Mas ninguém ousava dizer em alta voz o que pensava dos atos de Tetzel.

Já em 1516, Lutero protestava do púlpito contra as cartas de indulgência, insistindo na necessidade de arrependimento. No ano seguinte, atacou as indulgências concedidas aos possuidores de relíquias, sem medo de descontentar Frederico, o Sábio, que possuía um grande número delas. Quando Tetzel iniciou a venda de indulgências na Alemanha, Lutero escreveu aos bispos, suplicando-lhes que se opusessem àquele comércio sacrílego. Alguns receberam o seu pedido com benevolência, outros com desprezo, mas nenhum se dispôs a intervir.
Por isso, na noite de 31 de outubro de 1517,Lutero afixou na porta da igreja do castelo 95 teses contra as indulgências. Não mencionara isso a pessoa alguma, nem mesmo aos amigos, pelo que o espanto foi geral quando, no dia seguinte, l.º de novembro, Dia de Todos os Santos, todos viram publicadas as teses. Era uso entre os professores fazer proposições, não somente para mostrar a sabedoria do autor como também para provocar a discussão pública, da qual talvez resultasse a verdade.
Nas teses, Lutero não atacava a igreja nem o papa. Ao contrário, imaginava defender o papa contra os vendedores de indulgências. nsistia no arrependimento e na contrição, que deviam produzir a vida pura e o horror ao pecado. Não se opunha às indulgências, mas ao abuso. Declarava que o pecador arrependido pode ser perdoado sem carta de indulgência e que o pecador não arrependido jamais o será, ainda que munido de uma daquelas cartas. Ninguém se apresentou em Wittenberg para refutar as teses de Lutero. Tetzel bramia de raiva, insultando e amaldiçoando Lutero do púlpito. Mandou acender uma grande fogueira, na qual pretendia queimar todos os que se opusessem à venda de indulgências e depois imprimiu teses nas quais colocava as decisões dos papas acima das Sagradas Escrituras. Por fim, ameaçou o doutor de Wittenberg com a excomunhão e com castigos terríveis. Lutero não imaginava que as suas teses fossem causar tamanho estrondo.

Depois de afixá-las na igreja do castelo, retirou-se a sua tranqüila cela cheio da paz e da alegria procedentes de um ato realizado em nome do Senhor. A venda das indulgências não foi a causa, mas a primeira ocasião para a Reforma.De modo algum Lutero pensava em reformar a igreja. Conhecera Roma e sua corrupção, porém não se levantava contra Roma. Reconhecia os abusos no seio da cristandade, porém não sonhava reprimi-los. Simplesmente procurava apartar as almas da perdição, como o pastor que, vendo as ovelhas do rebanho seguir uma vereda perigosa, se esforça para fazê-las voltar ao bom caminho. Nesse ponto, a Reforma mostrou muito bem o que era: obra de Deus. Chegara o momento da libertação da igreja. Deus havia escolhido um homem e, sem que ele suspeitasse, o preparara e armara para a luta. Todas as sementes da Reforma achavam-se encerradas nas teses de Lutero. Pela primeira vez, a doutrina evangélica da remissão gratuita dos pecados foi proclamada publicamente. O erro estava fadado a desaparecer diante de tão poderosa verdade.

A princípio, o papa não deu grande importância à causa de Lutero. No entanto, quando viu as proporções que ela tomava, não duvidou de que o poder romano viesse a cair por causa do monge alemão. Por isso, encarregou o dominicano Prierias de refutar as teses. Este cumpriu sua missão, tratando com desprezo o obscuro agostiniano e exaltando o poder do sumo pontífice.
Todo o comentário da epístola é uma exposição da graça e da fé que justifica. Multidões reuniam-se ao redor de Lutero para ouvi-lo.A universidade viu o número de alunos multiplicar-se a tal ponto nos anos que se seguiram à publicação das teses que Lutero escreveu a Espalatino:” É uma verdadeira inundação.A cidade não tem capacidade para hospedar todos os estudantes,e alguns vão embora porque não encontram alojamento”.Havia outro sábio que contribuía para a boa reputação da Universidade de Wittenberg, à qual fora chamado em 1518:Felipe Melâncton. Não somente teólogos, mas também incontáveis ouvintes leigos foram sustentados pela sua palavra. Só no ano de 1520, Lutero mandou publicar mais de cem volumes e brochuras,que os colportores vendiam de cidade em cidade,de casa em casa,fosse pela motivação do lucro,fosse por zelo pela causa.Se alguém não soubesse ler,o que era bastante comum na época,os estudantes em trânsito de uma universidade para outra demoravam-se no caminho para ler aos analfabetos os escritos do reformador.Movido pelo intenso desejo de dar expressão clara e completa à verdade a favor da qual combatia,Lutero publicou uma Carta à nobreza alemã.
A igreja Romana levantou três muralhas que se opõem como obstáculo insuperável a toda reforma: 1)a do poder religioso que se coloca acima do poder civil,2)a da supremacia do papa sobre as Sagradas Escrituras e 3)a do direito de convocar concílios que somente o papa tem.
Cada dia Lutero dedicava três horas à oração. Pedia aos amigos que se unissem a ele em intercessão.

“A oração,entre outras,deve ser a nossa primeira ocupação da manhã e a última da noite.Saibamos defender-nos contra os pensamentos enganosos que nos dizem:”Deixa para mais tarde,ocupa-te de tal ou tal negócio e orarás depois”.Desse modo,troca-se a oração pelas ocupações,e depois que estas lançam mão de nós,não nos largam mais.Quando no fim de nossa súplica dizeis “Amém”,acentuai bem esse amém e de modo algum duvidai de que Deus ponha toda a sua graça em ouvir-vos e não responda sim à vossa oração.Um bom barbeiro tem constantemente os olhos e o pensamento fixos na navalha.Cada coisa,para ser bem feita,requer o homem inteiro.A oração também, para se sincera,exige o coração inteiro”.Lutero não tomou parte ativa na organização da nova igreja, nem fez parte do consistório.Todavia,os domínios da vida moral e social,dos quais parecia não ocupar-se, conheceram a sua influência.Uma vez mantida a paz,contra toda expectativa,a Reforma pôde desenvolver-se e estender-se livremente no império alemão.O sucesso devia-se ao poder da Palavra de Deus e à direção providencial dos acontecimentos.
Lutero depositara grandes esperanças na nação alemã, não duvidando de que ela fosse ligar-se cada vez mais ao evangelho e se prepararia, pela fé e pela paciência, para o dia da luta.Quanto mais o tempo passava, contudo, mais ia ficando desapontado. O mundo lhe parecia mal, e os cristãos indiferentes. Dirigiu um folheto à igreja evangélica, no qual se queixava da conduta imoral dos estudantes, da negligência das autoridades em cumprir as suas altas funções, da avareza e da vida luxuosa dos membros da corte. Prévia catástrofes para a Alemanha: Deus faria passar suas testemunhas pelo fogo da provação, depois dar-se-ia a gloriosa vinda de Cristo e a restauração de todas as coisas. No que diz respeito a sua vida íntima e espiritual, Lutero seguia sem o menor desvio o caminho que lhe fora revelado pelo evangelho e que pregava aos outros. O sentimento de sua indignidade e de sua miséria natural, que nele nunca enfraqueceu, o impelia a refugiar-se com fé singela nos braços da misericórdia divina. Estava certo de sua reconciliação com Deus, da felicidade eterna e da vitória final de Deus sobre o mundo e o diabo. A oração era sua vida. Todos os que o ouviam orar compreendiam de onde lhe vinha força para cumprir a sua obra. Falava a Deus como a um pai, com a liberdade de filho e a humildade de um miserável pecador. Vivia verdadeiramente em Deus.
Mas o melhor alívio, a mais doce distração que Lutero procurava antes de qualquer outra, era a intimidade com a mulher, os filhos e amigos. Convencido da eficácia das relações de família e de amizade, esforçava-se por fazer sair do isolamento as pessoas melancólicas que se dirigiam a ele.

[1] João de Staupitz (c.1460-1524). (N. do E.)
[2] Habacuque 2.4; Romanos 1.17
[3] Ezequiel 18.23
[4] A indulgência plenária concedia a remissão absoluta das penas temporais, nesta vida e na outra. Quem se dispusesse a pagar podia obter antecipadamente o perdão de quaisquer pecados que cometesse no futuro. No período das Cruzadas, muitos nobres receberam a oferta de indulgência plenária para lutar ao lado da Igreja Romana. (N. do E.)
4. AS 95 TESES DE MARTINHO LUTERO

Movido pelo amor e pelo empenho em prol do esclarecimento da verdade discutir-se-á em Wittemberg, sob a presidência do Rev. padre Martinho Lutero, o que segue. Aqueles que não puderem estar presentes para tratarem o assunto verbalmente conosco, o poderão fazer por escrito.
Em nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.
1ª Tese
Dizendo nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo: Arrependei-vos...., certamente quer que toda a vida dos seus crentes na terra seja contínuo arrependimento.
2ª Tese
E esta expressão não pode e não deve ser interpretada como referindo-se ao sacramento da penitência, isto é, à confissão e satisfação, a cargo do ofício dos sacerdotes.
3ª Tese
Todavia não quer que apenas se entenda o arrependimento interno; o arrependimento interno nem mesmo é arrependimento quando não produz toda sorte de modificações da carne.
4ª Tese
Assim sendo, o arrependimento e o pesar, isto é, a verdadeira penitência, perdura enquanto o homem se desagradar de si mesmo, a saber, até a entrada desta para a vida eterna.
5ª Tese
O papa não quer e não pode dispensar outras penas, além das que impôs ao seu alvitre ou em acordo com os cânones, que são estatutos papais.
6ª Tese
O papa não pode perdoar divida senão declarar e confirmar aquilo que Já foi perdoado por Deus; ou então faz nos casos que lhe foram reservados. Nestes casos, se desprezados, a dívida deixaria de ser em absoluto anulada ou perdoada.
7ª Tese
Deus a ninguém perdoa a dívida sem que ao mesmo tempo o subordine, em sincera humildade, ao sacerdote, seu vigário.
8ª Tese
Canones poenitendiales, que não as ordenanças de prescrição da maneira em que se deve confessar e expiar, apenas aio Impostas aos vivos, e, de acordo com as mesmas ordenanças, não dizem respeito aos moribundos.
9ª Tese
Eis porque o Espírito Santo nos faz bem mediante o papa, excluído este de todos os seus decretos ou direitos o artigo da morte e da necessidade suprema
10ª Tese
Procedem desajuizadamente e mal os sacerdotes que reservam e impõem aos moribundos poenitentias canonicas ou penitências para o purgatório a fim de ali serem cumpridas.
11ª Tese
Este joio, que é o de se transformar a penitência e satisfação, Previstas pelos cânones ou estatutos, em penitência ou penas do purgatório, foi semeado quando os bispos se achavam dormindo.
12ª Tese
Outrora canonicae poenae, ou sejam penitência e satisfação por pecadores cometidos eram impostos, não depois, mas antes da absolvição, com a finalidade de provar a sinceridade do arrependimento e do pesar.
13ª Tese
Os moribundos tudo satisfazem com a sua morte e estão mortos para o direito canônico, sendo, portanto, dispensados, com justiça, de sua imposição.
14ª Tese
Piedade ou amor Imperfeitos da parte daquele que se acha às portas da morte necessariamente resultam em grande temor; logo, quanto menor o amor, tanto maior o temor.
15ª Tese
Este temor e espanto em si tão só, sem falar de outras cousas, bastam para causar o tormento e o horror do purgatório, pois que se avizinham da angústia do desespero.
16ª Tese
Inferno, purgatório e céu parecem ser tão diferentes quanto o são um do outro o desespero completo, incompleto ou quase desespero e certeza.
17ª Tese
Parece que assim como no purgatório diminuem a angústia e o espanto das almas, nelas também deve crescer e aumentar o amor.
18ª Tese
Bem assim parece não ter sido provado, nem por boas ações e nem pela Escritura, que as almas no purgatório se encontram fora da possibilidade do mérito ou do crescimento no amor.
19ª Tese
Ainda parece não ter sido provado que todas as almas do purgatório tenham certeza de sua salvação e não receiem por ela, não obstante nós termos absoluta certeza disto.
20ª Tese
Por isso o papa não quer dizer e nem compreende com as palavras “perdão plenário de todas as penas” que todo o tormento é perdoado, mas as penas por ele impostas.
21ª Tese
Eis porque erram os apregoadores de indulgências ao afirmarem ser o homem perdoado de todas as penas e salvo mediante a indulgência do papa.
22ª Tese
Pensa com efeito, o papa nenhuma pena dispensa às almas no purgatório das que segundo os cânones da Igreja deviam ter expiado e pago na presente vida.
23ª Tese
Verdade é que se houver qualquer perdão plenário das penas, este apenas será dado aos mais perfeitos, que são muito poucos.
24ª Tese
Assim sendo, a maioria do povo é ludibriada com as pomposas promessas do indistinto perdão, impressionando-se o homem singelo com as penas pagas.
25ª Tese
Exatamente o mesmo poder geral, que o papa tem sobre o purgatório, qualquer bispo e cura d'almas o tem no seu bispado e na sua paróquia, quer de modo especial e quer para com os seus em particular.
26ª Tese
O papa faz muito bem em não conceder às almas o perdão em virtude do poder das chaves (ao qual não possui), mas pela ajuda ou em forma de intercessão.
27ª Tese
Pregam futilidades humanas quantos alegam que no momento em que a moeda soa ao cair na caixa a alma se vai do purgatório.
28ª Tese
Certo é que no momento em que a moeda soa na caixa vêm o lucro e o amor ao dinheiro cresce e aumenta; a ajuda, porém, ou a intercessão da Igreja tão só correspondem à vontade e ao agrado de Deus.
29ª Tese
E quem sabe, se todas as almas do purgatório querem ser libertadas, quando há quem diga o que sucedeu com Santo Severino e Pascoal.
30ª Tese
Ninguém tem certeza da suficiência do seu arrependimento e pesar verdadeiros; muito menos certeza pode ter de haver alcançado pleno perdão dos seus pecados.
31ª Tese
Tão raro como existe alguém que possui arrependimento e, pesar verdadeiros, tão raro também é aquele que verdadeiramente alcança indulgência, sendo bem poucos os que se encontram.
32ª Tese
Irão para o diabo juntamente com os seus mestres aqueles que julgam obter certeza de sua salvação mediante breves de indulgência.
33ª Tese
Há que acautelasse muito e ter cuidado daqueles que dizem: A indulgência do papa é a mais sublime e mais preciosa graça ou dadiva de Deus, pela qual o homem é reconciliado com Deus.
34ª Tese
Tanto assim que a graça da indulgência apenas se refere à pena satisfatória estipulada por homens.
35ª Tese
Ensinam de maneira ímpia quantos alegam que aqueles que querem livrar almas do purgatório ou adquirir breves de confissão não necessitam de arrependimento e pesar.
36ª Tese
Todo e qualquer cristão que se arrepende verdadeiramente dos seus pecados, sente pesar por ter pecado, tem pleno perdão da pena e da dívida, perdão esse que lhe pertence mesmo sem breve de indulgência.
37ª Tese
Todo e qualquer cristão verdadeiro, vivo ou morto, é participante de todos os bens de Cristo e da Igreja, dádiva de Deus, mesmo sem breve de indulgência.
38ª Tese
Entretanto se não deve desprezar o perdão e a distribuição por parte do papa. Pois, conforme declarei, o seu perdão constitui uma declaração do perdão divino.
39ª Tese
É extremamente difícil, mesmo para os mais doutos teólogos, exaltar diante do povo ao mesmo tempo a grande riqueza da indulgência e ao contrário o verdadeiro arrependimento e pesar.
40ª Tese
O verdadeiro arrependimento e pesar buscam e amam o castigo: mas a profusão da indulgência livra das penas e faz com que se as aborreça, pelo menos quando há oportunidade para isso.
41ª Tese
É necessário pregar cautelosamente sobre a indulgência papal para que o homem singelo não julgue erroneamente ser a indulgência preferível às demais obras de caridade ou melhor do que elas.
42ª Tese
Deve-se ensinar aos cristãos, não ser pensamento e opinião do papa que a aquisição de indulgência de alguma maneira possa ser comparada com qualquer obra de caridade.
43ª Tese
Deve-se ensinar aos cristãos proceder melhor quem dá aos pobres ou empresta aos necessitados do que os que compram indulgências.
44ª Tese
Ê que pela obra de caridade cresce o amor ao próximo e o homem torna-se mais piedoso; pelas indulgências, porém, não se torna melhor senão mais seguro e livre da pena.
45ª Tese
Deve-se ensinar aos cristãos que aquele que vê seu próximo padecer necessidade e a despeito disto gasta dinheiro com indulgências, não adquire indulgências do papa. mas provoca a ira de Deus.
46ª Tese
Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem fartura , fiquem com o necessário para a casa e de maneira nenhuma o esbanjem com indulgências.
47ª Tese
Deve-se ensinar aos cristãos, ser a compra de indulgências livre e não ordenada
48ª Tese
Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa precisa conceder mais indulgências, mais necessita de uma oração fervorosa do que de dinheiro.
49ª Tese
Deve-se ensinar aos cristãos, serem muito boas as indulgências do papa enquanto o homem não confiar nelas; mas muito prejudiciais quando, em conseqüência delas, se perde o temor de Deus.
50ª Tese
Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa tivesse conhecimento da traficância dos apregoadores de indulgências, preferiria ver a catedral de São Pedro ser reduzida a cinzas a ser edificada com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.
51ª Tese
Deve-se ensinar aos cristãos que o papa, por dever seu, preferiria distribuir o seu dinheiro aos que em geral são despojados do dinheiro pelos apregoadores de indulgências, vendendo, se necessário fosse, a própria catedral de São Pedro.
52º Tese
Comete-se injustiça contra a Palavra de Deus quando, no mesmo sermão, se consagra tanto ou mais tempo à indulgência do que à pregação da Palavra do Senhor.
53ª Tese
São inimigos de Cristo e do papa quantos por causa da prédica de indulgências proíbem a Palavra de Deus nas demais igrejas.
54ª Tese
Esperar ser salvo mediante breves de indulgência é vaidade e mentira, mesmo se o comissário de indulgências, mesmo se o próprio papa oferecesse sua alma como garantia.
55ª Tese
A intenção do papa não pode ser outra do que celebrar a indulgência, que é a causa menor, com um sino, uma pompa e uma cerimônia, enquanto o Evangelho, que é o essencial, importa ser anunciado mediante cem sinos, centenas de pompas e solenidades.
56ª Tese
Os tesouros da Igreja, dos quais o papa tira e distribui as indulgências, não são bastante mencionados e nem suficientemente conhecido na Igreja de Cristo.
57ª Tese
Que não são bens temporais, é evidente, porquanto muitos pregadores a estes não distribuem com facilidade, antes os ajuntam.
58ª Tese
Tão pouco são os merecimentos de Cristo e dos santos, porquanto estes sempre são eficientes e, independentemente do papa, operam salvação do homem interior e a cruz, a morte e o inferno para o homem exterior.
59ª Tese
São Lourenço aos pobres chamava tesouros da Igreja, mas no sentido em que a palavra era usada na sua época.
60ª Tese
Afirmamos com boa razão, sem temeridade ou leviandade, que estes tesouros são as chaves da Igreja, a ela dado pelo merecimento de Cristo.
61ª Tese
Evidente é que para o perdão de penas e para a absolvição em determinados casos o poder do papa por si só basta.
62ª Tese
O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus.
63ª Tese
Este tesouro, porém, é muito desprezado e odiado, porquanto faz com que os primeiros sejam os últimos.
64ª Tese
Enquanto isso o tesouro das indulgências é sabiamente o mais apreciado, porquanto faz com que os últimos sejam os primeiros.
65ª Tese
Por essa razão os tesouros evangélicos outrora foram as redes com que se apanhavam os ricos e abastados.
66ª Tese
Os tesouros das indulgências, porém, são as redes com que hoje se apanham as riquezas dos homens.
67ª Tese
As indulgências apregoadas pelos seus vendedores como a mais sublime graça decerto assim são consideradas porque lhes trazem grandes proventos.
68ª Tese
Nem por isso semelhante indigência não deixa de ser a mais Intima graça comparada com a graça de Deus e a piedade da cruz.
69ª Tese
Os bispos e os sacerdotes são obrigados a receber os comissários das indulgências apostólicas com toda a reverência-
70ª Tese
Entretanto têm muito maior dever de conservar abertos olhos e ouvidos, para que estes comissários, em vez de cumprirem as ordens recebidas do papa, não preguem os seus próprios sonhos.
71ª Tese
Aquele, porém, que se insurgir contra as palavras insolentes e arrogantes dos apregoadores de indulgências, seja abençoado.
72ª Tese
Quem levanta a sua voz contra a verdade das indulgências papais é excomungado e maldito.
73ª Tese
Da mesma maneira em que o papa usa de justiça ao fulminar com a excomunhão aos que em prejuízo do comércio de indulgências procedem astuciosamente.
74ª Tese
Muito mais deseja atingir com o desfavor e a excomunhão àqueles que, sob o pretexto de indulgência, prejudiquem a santa caridade e a verdade pela sua maneira de agir.
75ª Tese
Considerar as indulgências do papa tão poderosas, a ponto de poderem absolver alguém dos pecados, mesmo que (cousa impossível) tivesse desonrado a mãe de Deus, significa ser demente.
78 ª Tese
Bem ao contrario, afirmamos que a indulgência do papa nem mesmo o menor pecado venial pode anular o que diz respeito à culpa que constitui.
77ª Tese
Dizer que mesmo São Pedro, se agora fosse papa, não poderia dispensar maior indulgência, significa blasfemar S. Pedro e o papa.
78ª Tese
Em contrario dizemos que o atual papa, e todos os que o sucederam, é detentor de muito maior indulgência, isto é, o Evangelho, as virtudes o dom de curar, etc., de acordo com o que diz 1Coríntios 12.
79ª Tese
Afirmar ter a cruz de indulgências adornada com as armas do papa e colocada na igreja tanto valor como a própria cruz de Cristo, é blasfêmia.
80ª Tese
Os bispos, padres e teólogos que consentem em semelhante linguagem diante do povo, terão de prestar contas deste procedimento.
81ª Tese
Semelhante pregação, a enaltecer atrevida e insolentemente a Indulgência, faz com que mesmo a homens doutos é difícil proteger a devida reverência ao papa contra a maledicência e as fortes objeções dos leigos.
82 ª Tese
Eis um exemplo: Por que o papa não tira duma só vez todas as almas do purgatório, movido por santíssima' caridade e em face da mais premente necessidade das almas, que seria justíssimo motivo para tanto, quando em troca de vil dinheiro para a construção da catedral de S. Pedro, livra um sem número de almas, logo por motivo bastante Insignificante?
83ª Tese
Outrossim: Por que continuam as exéquias e missas de ano em sufrágio das almas dos defuntos e não se devolve o dinheiro recebido para o mesmo fim ou não se permite os doadores busquem de novo os benefícios ou pretendas oferecidos em favor dos mortos, visto' ser Injusto continuar a rezar pelos já resgatados?
84ª Tese
Ainda: Que nova piedade de Deus e dó papa é esta, que permite a um ímpio e inimigo resgatar uma alma piedosa e agradável a Deus por amor ao dinheiro e não resgatar esta mesma alma piedosa e querida de sua grande necessidade por livre amor e sem paga?
85ª Tese
Ainda: Por que os cânones de penitencia, que, de fato, faz muito caducaram e morreram pelo desuso, tornam a ser resgatados mediante dinheiro em forma de indulgência como se continuassem bem vivos e em vigor?
86ª Tese
Ainda: Por que o papa, cuja fortuna hoje é mais principesca do que a de qualquer Credo, não prefere edificar a catedral de S. Pedro de seu próprio bolso em vez de o fazer com o dinheiro de fiéis pobres?
87ª Tese
Ainda: Quê ou que parte concede o papa do dinheiro proveniente de indulgências aos que pela penitência completa assiste o direito à indulgência plenária?
88ª Tese
Afinal: Que maior bem poderia receber a Igreja, se o papa, como Já O faz, cem vezes ao dia, concedesse a cada fiel semelhante dispensa e participação da indulgência a título gratuito.
89ª Tese
Visto o papa visar mais a salvação das almas do que o dinheiro, por que revoga os breves de indulgência outrora por ele concedidos, aos quais atribuía as mesmas virtudes?
90ª Tese
Refutar estes argumentos sagazes dos leigos pelo uso da força e não mediante argumentos da lógica, significa entregar a Igreja e o papa a zombaria dos inimigos e desgraçar os cristãos.
91ª Tese
Se a Indulgência fosse apregoada segundo o espírito e sentido do papa, aqueles receios seriam facilmente desfeitos, nem mesmo teriam surgido.
92ª Tese
Fora, pois, com todos estes profetas que dizem ao povo de Cristo: Paz! Paz! e não há Paz.
93ª Tese
Abençoados sejam, porém, todos os profetas que dizem à grei de Cristo: Cruz! Cruz! e não há cruz.
94ª Tese
Admoestem-se os cristãos a que se empenhem em seguir sua Cabeça Cristo através do padecimento, morte e inferno.
95ª Tese
E assim esperem mais entrar no Reino dos céus através de muitas tribulações do que facilitados diante de consolações infundadas.

BIBLIOGRAFIA:

CAIRNS, Earle E. O Cristianismo Através dos Séculos. Uma nova História da Igreja Cristã. Nova Edição Revisada e Ampliada. Editora Vida Nova.

SAUSSRE, A. de. Lutero: O grande reformador que revolucionou seu tempo e mudou a história da igreja. Editora vida.
BÍBLIA DE ESTUDO APOLOGÉTICA, ICP.

www.monergismo.com.br

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