domingo, 4 de novembro de 2012

CONHEÇA A HISTÓRIA DA FORMAÇÃO DOS EVANGELHOS

CONHEÇA A HISTÓRIA DA FORMAÇÃO DOS EVANGELHOS
(Por Alan G. de Sá)

O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS

O Evangelho segundo Mateus, apesar de vários argumentos contra a autoria do apóstolo, com várias tradições e opiniões de evidência interna, foi escrito pelo próprio Mateus, argumento esse que favoreceu o seu rápido uso e aceitação pela igreja primitiva, por suas raízes remontarem ao apóstolo. Sua autoria e autoridade apostólicas contam com as seguintes confirmações antigas: Papias, Irineu, Orígenes, Eusébio.

Eusébio de Cesaréia fala que Mateus, tendo primeiro proclamado o evangelho em hebraico, quando estava para ir às outras nações para proclamar o evangelho, colocou - o por escrito em sua língua natal e assim por seus escritos, supriu a necessidade de sua presença entre eles.[1] Ele também faz uma outra associação deste evangelho com o apóstolo Mateus, com uma informação de Papias[2] sobre Mateus de ter reunido ditos de Jesus em um dialeto hebraico. Alguns, porém acreditam que Papias fazia uma citação de uma outra obra de Mateus, Oráculos do Senhor, escrita por ele em hebraico (isto é aramaico, o idioma da Palestina na época, pois o hebraico clássico não era mais usado popularmente).

As citações mais antigas de Mateus aparecem no início do século II com Inácio, que morreu por volta de 107. Em meados do século II, era o mais usado dos evangelhos, evidenciado pelo fato de que escritores cristãos desse século citam-no mais que qualquer outro evangelho. Irineu, em Contra as Heresias, nos livros III e IV, cita mais do evangelho de Mateus do que dos quatro evangelhos combinados. Irineu ainda afirmou que o evangelho foi escrito enquanto Pedro e Paulo estavam em Roma, fundando aquela igreja, situando-o o mais tardar na década de 60 e sugerindo que foi até mais cedo: “Mateus, de fato, produziu seu Evangelho escrito entre os hebreus no dialeto deles, enquanto Pedro e Paulo proclamavam entre os hebreus no dialeto deles, enquanto Pedro e Paulo proclamavam o evangelho em Roma”.[3] O quadro de intenso conflito com o judaísmo podia se enquadrar em qualquer época da primeira metade do século I, especialmente o período ligado a Nero na década de 60, por sua perseguição aos cristãos que os distinguiu dos judeus.

Também as suas evidências internas como se o templo estivesse ainda funcionando (Mt 5.23,24; 17.24-27), apontam para uma data na década de 60, alguns o colocando após o evangelho de Marcos, entre 64 e 68. Outros o colocam como o mais antigo, com a sua data de composição entre os anos de 45 e 55 d.C.
O Evangelho Segundo Mateus é o primeiro livro no cânon do Novo Testamento, porque quando a igreja veio a estabelecer o cânon pensava-se que esse evangelho foi o primeiro a ser escrito e era o mais ligado ao Antigo Testamento, sendo o mais popular entre os sinóticos por ser diretamente ligado aos apóstolos, dados que Marcos e Lucas não foram escritos por apóstolos. Porém seu evangelho foi, provavelmente o último dos quatro a ser escrito.


Sobre o Autor: Não há muitas informações sobre Mateus. Os historiadores bíblicos acreditam que ele fora funcionário do tetrarca Herodes Ântipas e trabalhara perto de Cafarnaum, provavelmente, no posto fronteiriço da estrada que começava no Egito, passava pela Palestina, e seguia até Damasco na Síria.

O seu nome aparece nas listas dos apóstolos de Jesus em quatro passagens: Mt 10.3; Mc 3.18; Lc 6.15 e At 1.13. Morava em Cafarnaum, onde exercera o cargo de cobrador de impostos, “publicano”. Ao ser chamado por Jesus, abandonou tudo e passou a seguí-lo (Mt 9.9; Mc 2.14; Lc. 5.27,28). Pouco mais tarde, ofereceu um banquete a Jesus. Muitos publicanos amigos de Mateus fizeram-se presentes ao encontro (Mt 9.10; Mc 2.12; Lc 5.29). Provavelmente era uma despedida a seus ex-colegas. O trecho de Lc 5.29 afirma claramente que o mesmo teve lugar na casa de Levi, sendo esta informação usada como base para identificar Levi com Mateus. Mateus volta a ser mencionado em At 1.13, com os apóstolos no cenáculo em oração.

Várias estórias dizem que Mateus foi à Etiópia, Macedônia, Síria, Pérsia, Pártia e Média. Uma linha da tradição diz que Mateus morreu na Etiópia ou na Macedônia, de morte natural. As igrejas gregas e romanas, por outro lado, celebram o seu martírio. Essas últimas opiniões não têm comprovação histórica.


O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS


Marcos é considerado hoje, o primeiro evangelho que foi escrito. É colocado após o evangelho de Mateus em nossas Bíblias, provavelmente porque Agostinho e outros entre os primeiros comentadores consideraram-no uma condensação do evangelho de Mateus. Como os outros evangelhos, as discussões sobre autoria e data e ambiente de Marcos giram em torno de testemunho externo e inferências sobre características internas desse evangelho. Nele, assim como nos outros evangelhos, o autor não diz o seu nome, sendo a sua associação a Marcos feita pelo testemunho da Igreja antiga.

Uma referência dada por Eusébio de uma citação de Papias, mostra Marcos como intérprete de Pedro (História Eclesiástica 3.39.15). O Prólogo antimarcionita (ca 180 d.C.), Irineu (Contra heresias 3.1.1-2) e Clemente de Alexandria (registrado em História Eclesiástica 6.14) confirmam esta identificação. Não há evidência interna para outro autor.

Para muitos teólogos, este Marcos, se refere a João Marcos, conhecido como assistente de Pedro, Paulo e Barnabé.[4] O nome Marcos era comum, portanto essa associação com Pedro e Paulo e o testemunho dos Pais da Igreja são muito importantes para a sua identificação. Ele deve ter tido ligação apostólica para explicar a sua aceitação pela Igreja na coleção básica de um evangelho quádruplo, mesmo que a igreja reconhecesse que não fora escrito por um apóstolo.

Quanto a sua datação, o testemunho externo não é uniforme, tornando um pouco difícil estabelecer a sua datação. Irineu situa a composição após a morte de Pedro e Paulo, uma data que aponta para o fim da década de 60, enquanto Clemente de Alexandria indica uma data correspondente ao período em que Pedro e Paulo estiveram em Roma. Se isto estiver correto, a data da autoria retrocede a aproximadamente à década de 50.

Porém há um testemunho de Clemente de Alexandria, que Pedro aprovou a obra de Marcos (História Eclesiástica 2.15.2), tornando possível a datação deste evangelho para uma data no final da década de 50 até meados da década de 60. A possibilidade de uma data no início da década de 60 é boa.
Em contraste com outras questões que envolvem o evangelho de Marcos, parece geralmente aceito pelos estudiosos de que este evangelho foi escrito em Roma, provavelmente visando aos gentios daquela cidade. O próprio livro fornece-nos indícios sobre isso, no fato de que Marcos citou as palavras proferidas por Jesus em aramaico, ajuntando-lhes a tradução ou as explicações necessárias, esclarecendo, ainda, diversos costumes correntes entre os judeus, ainda diversos costumes correntes entre os judeus.
Em muitos manuscritos antigos existem declarações introdutórias que declaram, bem definidamente, que esse evangelho foi escrito em Roma, e apesar dessas declarações repousarem unicamente na tradição, contudo, a tradição parece justificada. É provável que o evangelho de Marcos tenha sido escrito em Roma, pouco antes do martírio de Pedro (que teve lugar em 62-64 d.C.).

O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS


Este evangelho é, entre os quatro, o mais longo, possuindo uma mistura de ensino, milagre e nele há mais parábolas que qualquer outro evangelho. Muitos de seus discursos acontecem em cenas de refeição[5], que lembram os simpósios gregos, nos quais a sabedoria era apresentada.

A evidência externa é consistente ao nomear Lucas como o autor. Justino observa que essa “memória de Jesus” foi escrita por um seguidor dos apóstolos. Também há ligações feitas por Irineu[6] deste evangelho com Lucas, um seguidor de Paulo, e registra a evidência das seções “nós” de Atos como apontando para alguém que conhecia Paulo. Alusões a este evangelho aparecem tão cedo como 1-2 Clemente (c. 95 e 100 d.C.). O cânom de Muratori também atribui este evangelho a Lucas, um médico. Tertuliano[7] chama o Evangelho de Lucas de um “sumário do Evangelho de Paulo”.
Eusébio, em história Eclesiástica 3.4.7, informa que Lucas é natural de Antioquia da Síria, e que os seus pais eram gentios. Provavelmente se converteu desde cedo ao cristianismo, depois da inauguração dos primeiros esforços evangelísticos da igreja. A unanimidade da tradição sobre a autoria é importante. Algumas informações também nos possibilitam saber um pouco de seu perfil: Em Colossenses 4.10-14, provavelmente seja Lucas a pessoa incluída, torna-se possível concluir que Lucas não era judeu e era médico. O uso e conhecimento do Antigo Testamento presentes neste evangelho evidenciam que é provável que Lucas fosse um temente a Deus ou um ex-prosélito judeu. A sua história no livro de Atos, tem ligações iniciais com Paulo, em Trôade (ver Atos 16.10), onde a palavra nós subentende que naquele tempo o escritor era um dos companheiros do apóstolo. Conforme se evidencia em Atos, Lucas não era um companheiro constante de Paulo, e sim ocasional.
É possível que certas revelações dadas ao apóstolo Paulo tenham influenciado algumas expressões e conceitos básicos do evangelho de Lucas (tais como as que encontramos em Ef. 3.3; I Co 9.1 e 11.23). Parece haver certo paralelismo nas palavras, e em tais comparações como Lc 10.7 com I Co 10.27; Lc. 17.27-29 e 21.34,35 com I Tes. 5.2,3,6,7. Alguns também acreditam que a escolha de materiais, no evangelho de Lucas, tenha sido influenciada pelos ensinamentos de Paulo, bem como da associação geral que Lucas teve com Paulo. Alguns eruditos têm negado essa influência, ou, pelo menos, têm-na diminuído grandemente, contudo, não podemos desconsiderá-la inteiramente.
A data de Lucas relaciona-se em três partes com essas três questões: a relação com a data do evangelho de Marcos, o término de Atos e se as alusões da destruição de Jerusalém no ano 70 d.C. ocorrem em Lucas 21. Uma data na década de 60 parece provável.
O ambiente de Lucas não é conhecido. Há muitos candidatos, incluindo tradições para Antioquia, como também Acaia, na Grécia, além das sugestões para Roma, à luz do fim de Atos. A ausência de uma indicação clara na tradição externa significa que não sabemos o ambiente exato. As questões dominantes envolvem uma comunidade mista judaico-cristã. Além disso, podemos dizer pouca coisa.
O próprio autor declara peremptoriamente um dos propósitos que teve, ao escrever a sua obra, no prefácio deste evangelho (1:1-4). Muitas pessoas haviam escrito a respeito de Jesus e sua vida admirável, talvez de maneiras incompletas e quiçá contraditórias; e Lucas desejava suprir uma narrativa em ordem e digna de confiança para Teófilo (que evidentemente era um ato oficial romano, possivelmente recém-convertido ao cristianismo). Todavia, também é possível que Teófilo não fosse o único destinatário porque Lucas pode ter tido o interesse de suprir um evangelho em ordem e completo para leitores não judeus. E Lucas também queria esclarecer, ao governo imperial de Roma, que os cristãos não eram alguma seita sediciosa e subversiva, e nem mera facção do judaísmo; pelo contrário, que a sua mensagem é universal e, por isso mesmo, importante para todos os povos. Também desejava apresentar um Salvador universal, um grande e compassivo Médico, Mestre e Profeta, que viera aliviar os sofrimentos humanos e salvar as almas dos homens.
O governo romano havia aprendido a tolerar o judaísmo, quase inteiramente, por ter antigas e profundas raízes culturais. É verdade que o cristianismo tinha origem recente, mas isso não significava que não tivesse importância universal, motivo por que também deveria usufruir de aceitação por parte do estado romano. É interessante observarmos que este evangelho exerceu pouco efeito na situação política, e que as perseguições de forma alguma se abrandaram; de fato, se prolongaram até os dias de Constantino (300 D.C.). Por conseguinte, a legalidade do cristianismo não foi aceita, nem por causa deste evangelho nem em vista de qualquer outro motivo.
Não podemos deixar de notar, igualmente, que a mensagem geral dos evangélicos sinópticos, e não apenas a do evangelho de Lucas, é que a igreja tinha por intenção suprimir a sinagoga como o verdadeiro Israel, e que por isso mesmo tinha o direito de ser reconhecida e até mesmo ser protegida pelo estado, conforme este vinha fazendo com o judaísmo. Os cristãos foram perseguidos, tanto por Roma como pelos judeus. Os cristãos gostaram de ver removidos ambos esses fatores, ou, então, pelo menos, de ter obtido, em alguma medida, alguma proteção romana contra as ações maldosas de determinados elementos radicais, as autoridades religiosas dos judeus. Jesus mostrou ser o Messias das profecias judaicas sobrenaturalmente comprovado. Somente a perversão voluntárias das massas populares judaicas havia forçado Paulo e Barnabé a se lançarem em uma missão entre os pagãos. Os cristãos, portanto, em realidade não eram apóstatas do judaísmo, mas representavam o verdadeiro Israel, porquanto a massa do povo terreno de Israel se recusara obstinadamente a reconhecer a mensagem de Deus, entregue por intermédio do seu próprio Messias.
Apesar de suas origens judaicas, todavia, o cristianismo deveria ser reputado como religião universal, porque não reconhecia qualquer limitação racial ou cultural. O evangelho de Lucas traça a genealogia de Jesus até Adão, e não até Abraão, e esse fato, por si mesmo, é extremamente significativo, porquanto subentende universalidade. Jesus foi declarado pelo profeta Simeão como “...luz para revelação aos gentios, e para glória do teu povo de Israel” (Lucas 2:32).
No evangelho de Lucas, em seu sermão inaugural, Jesus asseverou que Elias não fora enviado às muitas viúvas de Israel e, sim, a Sarepta, na terra de Sidom, ao passo que Eliseu não purificou nenhum dos muitos leprosos que haviam em Israel, mas tão somente a Naamã, o sírio. Um samaritano e não um judeu, é o herói de uma das mais coloridas parábolas do evangelho de Lucas. Quando Jesus curou os dez leprosos, apenas um, um agradecido samaritano, regressou para louvar a Deus e dar-lhe graças. Além desses fatos, também devemos notar que o próprio evangelho de Lucas prepara o caminho para o livro de Atos, que é, bem definidamente, uma descrição sobre a evangelização universal, feita pelos cristãos primitivos. E é assim que ouvimos Pedro a pregar: “Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas; pelo contrário, em qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável” (Atos 10:34,35). E é ali, igualmente, que encontramos as palavras de Paulo e Barnabé: “Eu te constituí para luz dos gentios, a fim de que sejas para salvação até aos confins da terra” (Atos 13:46,47). Por conseguinte, pode-se ver claramente que um dos grandes temas deste evangelho é a – universalidade – da mensagem cristã.
Existem outros propósitos, além dessas finalidades mais latas: Lucas dá proeminência à obra do Espírito Santo. Há dezessete referências ao Espírito, no evangelho de Lucas, em comparação com as seis referências no evangelho de Marcos, e com as doze referências no evangelho de Mateus. Assim é que já nos capítulos de introdução, lemos a informação do enchimento de João Batista com o Espírito Santo. Maria recebeu a sua mensagem por agência do Espírito Santo. O Cristo que saiu por toda a parte fazendo o bem, era guiado pelo Espírito Santo, e o Senhor prometeu a mesma bênção aos seus discípulos, especialmente após a sua ressurreição. O livro de Atos dá a continuação ao mesmo notável pormenor, pois neste livro é que o Espírito Santo recebe mesmo proeminência.
Lucas salientou a vida de oração de Jesus mais do que qualquer dos demais evangelhos. Vemos isso logo após o seu batismo, imediatamente antes de haver selecionado os doze, quando passou a noite inteira em oração, e por ocasião de sua transfiguração, e até mesmo no momento da morte: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”. A prática da oração, por conseguinte, tornou-se comum na igreja primitiva.
Muitos têm observado que o evangelho de Lucas demonstra um marcante interesse pelo papel das mulheres e a importância delas na tradição do evangelho. Portanto, um dos propósitos de Lucas foi o de mostrar os privilégios do sexo mais fraco no seio da igreja. É por essa razão que ali encontramos várias narrativas com essa ênfase: Maria, Isabel, a profetisa Ana, as “filhas de Jerusalém”, que lamentavam os sofrimentos e a morte de Jesus, etc. Mulheres também são destacadas no livro de Atos, como Safira, Priscila, Drusila, Berenice, Maria (mãe de João Marcos), a criada Rode, Lídia, Damaris de Atenas, as quatro filhas de Filipe, que profetizavam, e uma referência incidental de que Paulo tinha uma irmã (Atos 23:16).
Lucas procurou compensar certas grandes deficiências do evangelho de Marcos, como, por exemplo, a falta de menção das aparições de Jesus após a sua ressurreição. O propósito de Lucas era fortalecer a fé na história do sepulcro vazio, e as suas pesquisas preencheram admiravelmente essa necessidade.
O EVANGELHO SEGUNDO JOÃO


Este evangelho, em relação aos demais, é singular. Irineu, Tertuliano e Clemente de Alexandria concordam que João, o apóstolo, é o autor. Irineu é importante porque pertencia a uma geração posterior a João. Ele conheceu Policarpo e Potinos, que tinham estado com João. Irineu, em sua Epístola a Florinos, menciona que João escreveu seu evangelho após os outros evangelhos, enquanto vivia em Éfeso (Eusébio, História Eclesiástica, 5.20.6). Em Contra Heresias 3.1.2, ele afirma que o autor foi João, aquele que se inclinou sobre o peito de Jesus, e que o livro foi escrito em Éfeso.

Não só Irineu, mas também Clemente de Alexandria e Tertuliano, proveram, no século II, evidências consistentes da crença de que o apóstolo João escreveu o evangelho. Segundo Eusébio (História Eclesiástica 6.14.7), Clemente escreveu: “Mas aquele João, depois de tudo, consciente de que os fatos exteriores encontravam-se relatados nos evangelhos, a pedido de seus discípulos e, divinamente, movido pelo Espírito de Deus, compôs um evangelho espiritual”.
Não deve ter passado muito tempo desde a publicação do quarto evangelho até que ele fosse reunido aos demais, formando o evangelho quádruplo. Em outras palavras, a maior parte do evangelho de João circulava, no início como parte de um livro. Esse livro não era um rolo de pergaminho como, indubitavelmente os primeiros manuscritos o foram, mas um códice, um livro com folhas separadas, como os da atualidade, e costurado ou colado em um dos lados.
Era conhecido, simplesmente, como O Evangelho, e continha os quatro evangelhos canônicos. Depois, esse ‘evangelho’ foi dividido em partes, ‘Segundo Mateus, ‘Segundo Marcos’, ‘Segundo Lucas’, ‘Segundo João’.
Certamente, do final do século II em diante, há um acordo tácito na igreja em relação à autoria, canonicidade e autoridade do evangelho de João. Um argumento silencioso, nesse caso, mostrou-se poderoso (porque, em outras circunstâncias, seria de se esperar que a pessoa em questão fizesse muito barulho!): “É muito significativo que Eusébio, que teve acesso a muitos trabalhos que, atualmente, encontraram-se perdidos, fale sem reservas do quarto evangelho como uma inquestionável obra de João” (Westcott, 1. lix). O silêncio é ‘mais significativo’ precisamente porque cabia a Eusébio discutir os casos duvidosos.
Outras testemunhas do segundo do segundo século eram Teófilo de Antioquia, autor do Cânon Muratorium[8]. Esses testemunhos têm sido desafiados nos tempos modernos, em diferentes bases, como o silêncio de Inácio sobre João quando escreveu à Igreja efésia no inicio do segundo século, a afirmação de que um efésio com o mesmo nome, João, o Ancião, poderia ter sido o autor, ou que registros de um imediato martírio de João eliminam a possibilidade de sua autoria. Essas objeções são facilmente respondidas.
Mais graves são as alegações de que um pescador não teria condições de exibir tal entendimento do conceito teológico como foi manifestadamente demonstrado pelo autor (At 4.13). Também parece estranho que um Galileu desse uma atenção tão superficial ao ministério de Jesus na Galiléia. E se o autor fosse membro do círculo apostólico, por que deixaria de registrar uma descrição da transfiguração e da agonia do Senhor Jesus no Getsêmani, das quais teria sido uma privilegiada testemunha?
Diante de tais questões, muitos concluíram que embora João tivesse fornecido maior parte do material dos Evangelhos, outro – e provavelmente um de seus discípulos mais próximos - tenha sido o seu verdadeiro autor. Entretanto, ainda é possível sustentar a autoria de João porque nenhum argumento decisivo foi até agora apresentado, e nenhuma alternativa satisfatória tem sido oferecida. O autor estava familiarizado com Samaria (cf. 3.23; 4.5-12) e com Jerusalém antes da sua destruição em 70 d.C., conhecia seus detalhes, como foi verificada através de descobertas arqueológica feita no poço de Betesda (5.2) e no Tribunal (19.13). Parece que ele foi testemunha ocular de muitos acontecimentos (por exemplo, 6.10; 19.31-35), e era versado na terminologia religiosa corrente entre os judeus piedosos da Palestina do ano 68 d.C., de acordo com a literatura Qunram.
Durante anos foi algo popular, de acordo com F.C. Baur, da Escola de Tübingen na Alemanha, insistir que o Evangelho de João era um produto da metade do segundo século d.C. Mas o fragmento John Rylands (P52) de um texto de seu Evangelho, encontrado no Egito na época moderna, e datado pelos paleógrafos da primeira metade do segundo século, ajudou a determinar a elaboração do quarto Evangelho como próxima ao primeiro séulo. O uso de João como Evangelho autorizado, juntamente com os outros três, foi atestado pelo Papiro Egerton 2, publicado na obra Fragments of na Unknown Gospel and Other Early Christian Papyri, por H. I. Bell e T. C. Sheat (1935). Além disso, o quarto Evangelho parece ter sido citado pelo escritor gnóstico Valêncio, em seu Evangelho da Verdade, originalmente composto em aproximadamente 140 d.C.
Nas catacumbas de Roma também existem pinturas de Cristo como o Bom Pastor, e da ressurreição de Lázaro, que podem ser datadas de aproximadamente 150 d.C. Dessa forma, a origem do Evangelho de João pode ser datada aproximadamente da última metade do primeiro século, embora alguns possam aceitar uma data aqnterior, tendo Éfeso como principal local de seus escritos.

BIBLIOGRAFIA
CHAMPLIN, Russell Norman. Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Editora Hagnos; 7ª edição, 2004. São Paulo.

BOCK, Darrell L. Jesus Segundo as Escrituras. Editora Shedd; 1ª edição, 2006. São Paulo.

CESARÉIA, Eusébio de. História Eclesiástica. Editora CPAD; 1ª edição, 1999. Rio de Janeiro.

CARSON, D. A. O Comentário de João. Editora Shedd. 2007. São Paulo.

DICIONÁRIO BÍBLICO WYCLIFFE. Editora CPAD; 1ª edição, 2006. Rio de Janeiro.

BÍBLIA DE ESTUDO PENTECOSTAL, Editora CPAD; 1995.

BÍBLIA APOLOGÉTICA DE ESTUDO, ICP; 2ª edição, 2005. Jundiaí, São Paulo.

[1] Eusébio de Cesaréia, História Eclesiástica, 3.8.

[2] Papias viveu em cerca de 130 d.C., e foi discípulo do apóstolo João.

[3] Eusébio de Cesaréia, História Eclesiástica, 5.8.

[4] Ver em At 12.12,25; 13.13; 15.37-39; 1 Pe 5.13; Fm 24; Cl 4.10; 2 Tm 4.11.

[5] ver Lc 7.36-50; 11.37-52; 14.1-24; 22.1-38; 24.36-49.
[6] Irineu Contra as heresias 3.1.1; 3.14.1

[7] Contra Marcião 4.2.2; 4.5.3

[8] O cânon Muratoriano era uma lista de livros do Novo Testamento, que deveriam ser lidos na adoração pública. O trabalho original, muito provavelmente, foi preparado em grego, embora as informações de que dispomos a respeito tenham chegado até nós mediante uma tradução latina. Aparentemente, a lista reflete o uso da Igreja Romana, em cerca de 200 d.C., e alguns vinculam isso ao trabalho de Vítor, de Roma. Esse cânon deriva o seu nome do erudito italiano Ludovico Muratori, que o encontrou na Biblioteca Ambrosiana de Milão e o publicou em 1740, como um exemplar de escrito vazado em latim bárbaro. Essa lista inclui as epistolas de Paulo, duas epístolas de João, a epístola de Judas, mas não menciona as epístolas de Pedro e nem a de Tiago. Todavia, inclui os livros Sabedoria de Salomão e o pastor de Hermas, livros esses que, afinal de contas, não foram universalmente aceitos no cânon do Novo Testamento. Entretanto, em alguns grupos protestantes, até hoje esses dois últimos livros são recomendados para a leitura em público. Esse cânon é importante pelo menos devido a três razões: primeiro mostra que a formação do cânon do Novo Testamento já estava adiantada no século II d.C., embora ainda não tivesse terminado, porquanto não contava com todos os nossos vinte e sete livros neotestamentários. Em segundo lugar, vemos que certos livros, que agora são considerados não-canônicos, chegaram a gozar de considerável prestígio. E, finalmente, que o processo de canonização dos livros do Novo Testamento ocupou um tempo considerável. Sete hereges são mencionados por nome, e seus escritos são rejeitados. (R.N. Champlin. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Ed. Hagnos).

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