terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

A Instituição do discipulado

A instituição do discipulado

Subsídio para a lição da revista betel, Vida Cristã Vitoriosa, dia 17/02/2013.

Texto Áureo

“Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. Mt 28.19

Verdade Aplicada

Uma grande prova do nosso amor ao Senhor Jesus está em o obedecermos através da prática do discipulado.

 1.O DISCIPULADO NA IGREJA PRIMITIVA
 2.O DISCIPULADO CRISTÃO ATUAL: BÍBLICO OU PROCESSO HUMANO E INSTIUCIONAL?


“E todos os dias no templo e nas casas, não cessavam de ensinar e de anunciar a Jesus Cristo.” [1]

“O discipulado cristão é uma expressão vital da vida cristã. Ensiná-lo é imperativo; negligenciá-lo é trágico. (...) Com tal ênfase no Novo Testamento, não será verdade que a igreja cristã na pátria e no exterior falha porque negligência a essência da comissão de Cristo? Nós evangelizamos, realizamos conversões, mas falhamos quanto a fazer discípulos.” [2]

O Discípulo é literalmente um aprendiz, aquele que segue os ensinamentos de alguém.[3] Referente a Jesus, o discípulo não tem apenas a relação de professor e aluno, mas de plena confiança, onde o discípulo confia todas as áreas de sua vida nas mãos de seu mestre, que não é apenas seu professor, mas principalmente seu Senhor. Jesus chama de discípulos todos aqueles que permanecem em sua palavra.[4] Entretanto, discípulos não são feitos de uma hora para outra. Leva tempo.

Apesar de vivermos em um contexto cultural diferente da época dos apóstolos, os desafios permanecem os mesmos à evangelização em um mundo que é indiferente e hostil aos ensinamentos de Cristo. A necessidade de arrependimento e crer em Jesus Cristo para remissão dos pecados, como era a necessidade do mundo na época dos eventos registrados no livro de Atos dos Apóstolos são a mesma do mundo atual, e creio que o que está registrado nas páginas das Sagradas Escrituras é manual divino para todas as épocas, no papel de direcionar a igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo na sua tarefa de fazer discípulos de todas as nações.

Como eles desempenharam esta tarefa? Podemos ver claramente que os apóstolos seguiram o exemplo do Senhor Jesus em formar discípulos. Seus métodos de instrução e associação, que podemos chamar também de ensino e comunhão, estavam presentes no ministério dos apóstolos e dos primeiros cristãos:
“E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão e nas orações. (...) Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum.” [5]
“E todos os dias, no templo e nas casas, não cessavam de ensinar e de anunciar a Jesus Cristo.” [6]
“E sucedeu que todo um ano se reuniram naquela igreja e ensinaram muita gente. Em Antioquia foram os discípulos pela primeira vez chamados cristãos.” [7]

Através de textos como este, podemos perceber que discipulado é uma experiência única e também contínua, é crescer na graça e conhecimento do Senhor Jesus Cristo.[8] Pentecostes, citado no capítulo dois do livro de Atos, não gerou logo discípulos. Como Peters observou, não é dito nada sobre os discípulos nos cinco primeiros capítulos de Atos exceto que eram aplicados no estudo da Palavra, fiéis em suas amizades, fervorosos em suas orações e contribuíam muito e eram hospitaleiros. [9] 

A pregação, testemunho e ensinamentos eram reservados apenas aos apóstolos e apenas depois de os novos cristãos terem se acostumado ao meio de vida cristão conforme os ensinamentos dos apóstolos e fortalecendo as novas amizades entre os irmãos é que eles estavam prontos para agirem como testemunhas fiéis do Senhor. É muito importante que haja tempo, amizade e ensinamento no processo de discipulado.

A PRIMEIRA OPORTUNIDADE PARA APLICAR A LIÇÃO APRENDIDA

Tempo, amizade e ensinamento. Esses princípios usados pelo Senhor Jesus ao discipular os apóstolos, deveriam agora, direcionados e capacitados pelo Espírito Santo de Deus, ser usados pelos apóstolos na sua tarefa de fazer discípulos de todas as nações. E não demorou muito para que eles tivessem a primeira oportunidade para aplicarem as lições que haviam aprendido após três anos andando com Jesus, sendo discipulados pelo Senhor. Esses princípios aplicados pelos apóstolos são observados logo de início, diante do seu primeiro desafio de fazer discípulos logo após a primeira pregação realizada por Pedro após a poderosa manifestação do Espírito Santo batizando aqueles que estavam esperando, conforme Jesus orientou[10]. Havia um grande número de convertidos que agora precisavam ser discipulados:

“De sorte que foram batizados os que de bom grado receberam a sua palavra; e, naquele dia, agregaram-se quase três mil almas.” [11]
Após a poderosa e ungida pregação de Pedro, o resultado da ação do Espírito Santo através da pregação da Palavra gerou três mil novos convertidos, três mil bebês espirituais, que precisavam ser alimentados; eram três mil novas vidas que precisavam ser discipuladas. Como os apóstolos agiram diante deste desafio, sendo que dentro de poucos dias muitos destes convertidos judeus voltariam para suas nações de origem? Não podemos esquecer-nos do que diz o texto sagrado:

“E em Jerusalém estavam habitando judeus, varões religiosos, de todas as nações que estão debaixo do céu. E correndo aquela voz, ajuntou-se uma multidão e estava confusa, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua. E todos pasmavam e se maravilhavam, dizendo uns aos outros: Pois quê! Não são galileus todos esses homens que estão falando? Como pois os ouvimos, cada um, na nossa própria língua em que somos nascidos? Partos e medos, elamitas e os que habitam na Mesopotâmia, e Judéia, e Capadócia, e Ponto e Ásia, e Frígia, e Panfília, Egito e partes da Líbia, junto a Cirene, e forasteiros romanos (tanto judeus como prosélitos), e cretenses, e árabes, todos os temos ouvido em nossas próprias línguas falar das grandezas de Deus.” [12]

Os apóstolos criaram condições emergenciais para que antes de voltarem para suas nações, estes novos convertidos fossem discipulados, para que conhecessem mais ao Senhor:

“E perseveraram na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações. Em cada alma havia temor, e muitas maravilhas e sinais se faziam pelos apóstolos. Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e fazendas e repartiam com todos, segundo cada um tinha necessidade. E perseveravam unânimes todos os dias no templo e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e caindo na graça de todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar.” [13]

Como observamos anteriormente, após este relato de Lucas, nada é mais dito acerca destes novos discípulos até o capítulo seis, e a questão dos sinais e maravilhas e ensino era feitos pelos apóstolos. (Atos 2.42), não pelos novos discípulos. Estes apenas aprenderam tudo, ouvindo e observando o exemplo dos apóstolos. Eles cresceram como crianças recém-nascidas, observando tudo e ouvindo atentamente, para depois imitar. Nasceram e foram criados em um ambiente de comunhão e instrução.

No discipulado, comunhão e ensino andam juntos, pois o discípulo aprende pelo exemplo de seu mestre, do discipulador. Sejamos atentos ao que diz o relato das Escrituras Sagradas: Eles ouviam o ensino dos apóstolos e viam seus exemplos, que podem ser listados segundo Leroy Eims[14]:

1.      Aprenderam a perseverar em meio às perseguições por causa do evangelho (Atos 4.17; 5.18, 40);
2.      Aprenderam como os apóstolos pregavam o evangelho em todas as oportunidades (At 3.14, 15; 4.10, 33; 5.30, 31);
3.      Aprenderam como os apóstolos a reagir com alegria diante da perseguição pelo nome de Cristo (At 5.41).

O DISCIPULADO BÍBLICO PRODUZ CRISTÃOS QUE DARÃO CONTINUIDADE A OBRA DE CRISTO.

Este ambiente que eles foram discipulados, de comunhão, ensino e tempo, debaixo da capacitação do Espírito Santo, gerou discípulos que seriam produtivos em agirem como testemunhas de Jesus Cristo. Não podemos esquecer que ser testemunha de Jesus Cristo é o ponto de vista principal que devemos interpretar todo o relato do livro de Atos dos apóstolos, que bem pode ser chamado dos “Atos do Espírito Santo”:

“Mas recebereis a virtude do Espírito Santo que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até os confins da terra.” [15]

            Quem deu continuidade à ordem de Cristo, de testemunhar em Judéia e Samaria? Os apóstolos? Não, foram os novos discípulos, após o início da perseguição por causa de Estevão, liderada por Saulo:

“E também Saulo consentiu com a morte dele. E fez-se, naquele dia, uma grande perseguição contra a igreja que estava em Jerusalém; em todos foram dispersos pelas terras da Judéia e da Samaria, exceto os apóstolos.” [16] 

Judéia e Samaria foram evangelizadas pelos novos discípulos, em meio à perseguição. O modo como reagiram com fé diante da perseguição mostra que os discípulos aprenderam bem a lição com os apóstolos. Eles não saíram em fuga desesperadamente, e sem olhar para os lados ou para trás. Muito menos abandonaram a Cristo, antes o anunciava em todas as oportunidades:

“Mas os que foram dispersos iam por toda a parte anunciando a palavra. E descendo Filipe a cidade de Samaria, lhes pregava a Cristo.” [17]

Porém, eles só agiram deste modo observando o exemplo pessoal de seus líderes. Apenas seguiram o exemplo pessoal dos apóstolos, que os discipularam, em um ambiente marcado pela ação do Espírito Santo, amizade e comunhão constante entre os irmãos e ensino sólido da Palavra de Deus. Levou tempo, mas este discipulado gerou discípulos que levaram a efeito a continuidade da ordem de Cristo Jesus de serem suas testemunhas, de fazer discípulos de todas as nações.

Elementos como estes apresentados no ambiente do discipulado da igreja primitiva, bem como exemplos pessoais para serem seguidos estão de certa forma, escassos no meio cristão atual, porém, Deus não se deixa sem testemunho, e tem sempre os “sete mil” que não se dobram e não se rendem diante do esfriamento a apostasia espiritual característicos destes últimos dias. Oremos para que em cada cristão, seja ele ministro líder ou leigo, bem como em suas comunidades, estejam presente estes princípios como estes registrados nas Escrituras.

2. O DISCIPULADO CRISTÃO ATUAL: BÍBLICO OU PROCESSO HUMANO E INSTITUCIONAL?


Mas as correntes históricas substituíram o plano de Jesus por “Fazei convertidos (a uma ‘fé e prática’ específica) e batizai-os de modo a se tornarem membros da igreja.” [1]

“Pessoas verdadeiramente espirituais não se preocupam com minúcias sobre pontos doutrinários.” (Charles Parham, fundador do pentecostalismo) [2]

“Ai de vós escribas e fariseus, hipócritas! Pois que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós.” [3]

Um fator que pode ser acrescentado à afirmação de que o mandamento bíblico de “fazer discípulos” tem sido esquecido por grande parte da igreja evangélica brasileira, é o próprio processo de discipulado cristão atual, adotado em muitas igrejas de correntes neopentecostal e pentecostal.

Esta abordagem de “discipulado” (se é possível ser chamado assim) difere do método bíblico de instrução pessoal do novo convertido para ajudá-lo a crescer na graça e conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo, sendo substituída atualmente por um processo de “adaptação” a denominação que está aderindo.

Analisando este tipo de abordagem na história de algumas denominações, vemos que existem dois tipos de base deste “processo de adaptação”: A ênfase em observar certas práticas de costume adotadas pela comunidade, relacionadas geralmente ao vestuário e ao que o membro pode e não pode fazer, ou então, baseada na crença da teologia da prosperidade e na confissão positiva, que não exige um compromisso de verdadeiro discipulado cristão, e que acaba formando uma geração de seguidores essencialmente materialistas, com uma visão incorreta, distorcida acerca de Deus, Jesus Cristo e vida cristã.

Estes dois tipos de abordagem são perigosos, pois nenhum deles é eficaz em formar discípulos de Jesus Cristo. Formam sim, seguidores de suas denominações e de suas lideranças carismáticas. Não são bíblicos. Jamais foram usados por Cristo, pelos apóstolos ou pela igreja primitiva. Podem ser chamados de “processo humano de discipulado cristão”. É assim chamado por ser um processo inventado por homens e não ensinado por Jesus Cristo, homem, porém mestre dos mestres, o Senhor de tudo. É apenas o processo de adesão a fé e as normas de conduta da instituição, e não a verdadeira submissão ao senhorio de Cristo, conforme ensinada nas páginas das Escrituras Sagradas.

Em conseqüência desta forma de discipulado testemunhamos a formação de cristãos espiritualmente fracos, com pouco conhecimento bíblico. Cristãos com distorcidas visões sobre vida cristã, discipulado cristão e santidade. Para muitos, ser santo, segundo a bíblia é não ter TV, não usar anticoncepcional, não usar preservativos, não usar roupas como shorts ou bermuda.[4] Já tive oportunidade de testemunhar pregações evangelísticas deste tipo pelas ruas do centro de São Paulo. São pessoas que não foram discipuladas conforme a Palavra de Deus, porém que foram entregues ao radicalismo da visão de vida cristã de uma denominação. Foram sujeitas ao processo humano de discipulado.

Na outra extremidade deste processo humano de discipulado, vemos aqueles que são ensinados a terem sua crença em Jesus Cristo baseadas na teologia da prosperidade e na confissão positiva. São ensinadas que a fé em Jesus Cristo, a obediência ao pastor e a participação assídua dos cultos e trabalhos da igreja, a fidelidade nas contribuições como dízimos e ofertas, são o segredo para uma vida próspera e feliz, livres dos ataques do diabo e dos problemas da vida como desemprego e enfermidade. Serão sempre vitoriosos e que quando estes problemas o acometem, é sinal de pecado em suas vidas, de reprovação divina.

Como resultado destes tipos de processo humano no discipulado cristão, vemos pessoas que se tornam discípulos, não de Jesus Cristo, mas sim de seus líderes. Sem questionar a conduta de seus pastores, muitos adeptos de suas igrejas se tornam fiéis a visão de seus líderes, que para eles são sempre pessoas dotadas de algo sobre-humano, chegando, em alguns casos a serem considerados com uma figura messiânica, que não precisa prestar contas sobre sua vida. São incentivadas a trabalhar em favor do ‘reino de Deus’ expandindo a visão e a presença de sua denominação em outros territórios. É a visão predominante do movimento neopentecostal que se faz presente em algumas igrejas consideradas históricas e pentecostais.

Podemos fazer uma lista destacando alguns pontos comuns neste processo humano e institucional na tentativa de formar discípulos de Jesus Cristo. Neste processo o conceito de discipulado pode ser resumido na exposição do novo convertido aos seguintes pontos, sendo que nem todos listados abaixo se fazem presentes em todas as denominações, porém totalmente presentes em outras:

1. A presença de um líder forte e carismático. Ele é considerado um “ungido do Senhor”, inquestionável, que não precisa prestar contas de sua vida, que está no topo da pirâmide da denominação;

2. A introdução de símbolos, amuletos e campanhas de fé ao discípulo da denominação. Segundo Paulo Romeiro, a prática do movimento neopentecostal é “dinâmica e inovadora” [5]. Existe nelas a mudança constante de campanhas de fé para os seus seguidores e a introdução de símbolos que trazem a esperança de proteção e libertação de problemas e curas de enfermidades. Podem ser citados como exemplo o cálice da libertação, toalhas e rosas ungidas, campanha da “fogueira santa”, sabonetes e sal ungidos, gruta milagrosa, campanha da prosperidade, etc.;

3. Uma nova liturgia: O discípulo sujeito ao processo humano e institucional tem a possibilidade de participar de cultos que possuem uma liturgia menos conservadora, onde pode se emocionar através das canções e das mensagens que geralmente são de auto-ajuda, positivas, que dificilmente falarão de pecado, arrependimento, compromisso cristão, vida eterna.

4. A carência de embasamento bíblico e teológico. Não apenas no neopentecostalismo, mas já em muitas igrejas do movimento pentecostal, o distanciamento dos ensinos bíblicos para uma vida cristã sadia no exemplo de sermos discípulos de Cristo Jesus, tendo-o como Senhor e Mestre, tem dado lugar a um “self service” de teologias que o discípulo que participa do processo humano e institucional de discipulado pode escolher para se alimentar: Além da teologia da prosperidade e da Confissão Positiva, existe também a Teologia Narrativa, Teísmo Aberto, Teologia da Esperança, Ortodoxia Generosa, Teologia Quântica, Evangelho da Auto-ajuda.[6] Não há a presença de ensinamentos fundamentais da fé cristã como justificação, fé, graça, arrependimento, porém de ensinamentos que procuram eliminar a pobreza e a doença da vida de seus adeptos, levando-os a se preocuparem mais com a vida temporal do que com a vida futura.

Entretanto, a falibilidade deste tipo de processo humano e institucional na intenção de formar discípulos de Jesus Cristo, na verdade tem gerado uma grande quantidade de pessoas que, como bem chamou Paulo Romeiro, são pessoas que estão ‘decepcionados com a graça’, não àquela oferecida por Jesus Cristo através do evangelho, mas decepcionadas com a ‘graça’ a que foram expostas, de um evangelho irreal que trouxe esperanças que foram frustradas. São pessoas que foram sujeitadas a prática do abuso espiritual e religioso por parte de seus pastores e líderes.

Cada vez mais casos e casos de abusos religiosos tem se tornado conhecido, trazendo abalos no meio evangélico e arranhando a imagem dos seus pastores e líderes. Marília de Camargo César, em seu livro chamado Feridos em nome de Deus[7], traz uma série destes casos de pessoas que foram vítimas de abuso espiritual. Pessoas que passaram pelo processo humano e institucional de discipulado, que na verdade não se tornaram discípulos de Cristo, mas pessoas que tem profundas feridas religiosas causadas por aqueles que deveriam cuidar e alimentar as suas vidas, pessoas que estavam emocionalmente abaladas, com sérios problemas espirituais e familiares e que foram buscar ajuda e acabaram sofrendo esta decepção no último lugar da terra que elas esperavam serem vítimas deste tipo de abuso: A igreja.

Muitas destas pessoas perdem a fé em Deus e vêem com desconfiança qualquer um que procurar lhe falar de Deus, ou os pastores que pregam na televisão. Sofreram perdas materiais e pessoais. Casamentos desfeitos, empregos e finanças perdidas, carreiras profissionais prejudicadas podem ser listadas como algumas conseqüências na vida daqueles que sofreram abuso espiritual pelos seus líderes, em decorrência deste processo humano e institucional de formação de discípulos de Jesus Cristo.

Ricardo Gondim oferece algumas ferramentas que podem ajudar a identificar uma liderança que pode cometer abuso espiritual neste processo humano institucional na tentativa de formar discípulos:

1. Cuidado com frases do tipo: “Você ainda não está na nossa visão”. Não aceite nada que não possa ser questionado. Se o Deus da Bíblia se deixa questionar, por que seu pastor não o permitiria? Queira entender os porquês de cada ensino. A principal heresia que ameaçou o cristianismo foi o gnosticismo, a religião que lidava com mistérios. Era mística. Isso é um risco. Não aceite um líder que diz: Isso é verdade espiritual que você ainda não tem condições de entender.

2. Nunca aceite o milagre pelo milagre. Deus não precisa mostrar que é todo-poderoso. Deus não está em competição com os ídolos. Ele não precisa provar nada. O diabo, sim, é que precisa provar que pode alguma coisa.

3. Saiba distinguir quem está ganhando a glória por aquele milagre. Provérbios diz: “Sejam outros os lábios do que te louvam e não os seus próprios”. Preste atenção em lideres que tem uma necessidade imensa de se autoelogiar. A bíblia diz que se vangloriar pela boca é vergonha.

4. Perceba se o programa é mais importante que as pessoas. A prioridade é gente ou é programa? A igreja serve aos membros para ajudá-los a potencializar seus dons e talentos. Essa é a ordem correta. Quando o importante é o programa, as pessoas passam a ser peões a serviço de um programa. O pastor tem o dom de ser um facilitador dos dons das suas ovelhas.

5. Preste atenção as propostas megalomaníacas. Frases do tipo: “Vamos ganhar o mundo”. Esse foi o problema de Salomão. Ele maculou a história de Israel porque se tornou megalomaníaco. Construiu o templo, de riqueza ímpar, mas não se contentou. Quis mais. Quis palácios. Quando Salomão morreu, o reino estava endividado, e seu filho ficou numa situação difícil. Dali, Israel rachou numa guerra civil e permaneceu rachado até o fim. Muitos líderes são assim: megalomaníacos. Querem construir o templo mais suntuoso, querem o melhor de tudo, uma gula financeira que os leva ao abuso.

6. No culto, coloque-se sempre no lugar de uma pessoa não crente. Imagine que um professor universitário, amigo seu, ou um empresário vai visitar o culto da sua igreja. Como ele vai sair de lá? Achando que é um bando de malucos? Como é que ele entende aquilo que está sendo feito ali?

7. Fique atento aos sinais. Sinais de ostentação e vaidade, de riqueza e mudanças comportamentais do líder à medida que o seu ministério se expande e que sua reputação vai crescendo. Como ele ficou? Virou uma cara pedante, afetado? Repare nos sinais exteriores de riqueza.

8. Você tem medo de seu pastor? Tem medo de que ele possa orar e sua vida ser prejudicada? Se seu pastor lhe causa medo, certamente não é um servo de Jesus Cristo. Porque o perfeito amor lança fora todo o medo. As relações que estabelecemos têm de ser de amizade, de afeto, de solidariedade.
9. O pastor se comporta com cinismo diante das aflições humanas? O cinismo de alguém que não conhece as mazelas humanas, que não lida com a necessidade do outro, que não sabe o que é empatia? É daqueles que falam “Deus vai fazer maravilhas em sua vida”, mas não levam em conta as condições socioeconômicas, a dor humana, as carências sociais, as enfermidades incuráveis?Ele sabe trabalhar pastoralmente com o pai de uma criança que apresenta uma síndrome genética incurável/

10. Observe se ele ama as riquezas. O amor ao dinheiro é verdadeiramente a raiz de todos os males.[8]

Estes itens listados acima por Gondim podem ser vistos presentes em grande parte da liderança das igrejas evangélicas brasileiras pentecostais e neopentecostais. Pode-se dizer que é o perfil de grande parte dos “discipuladores” que criaram este processo humano e institucional de discipulado cristão, presente hoje no movimento evangélico brasileiro, na igreja moderna. Um retorno aos princípios bíblicos do discipulado, que é o objetivo principal da Grande Comissão, por parte do protestantismo brasileiro é vital para, de fato ser realizada a ordenança de “fazer discípulos” em nosso país, ajudando assim no cumprimento da Grande Comissão para todas as nações.

Alan g. Sá

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1] WILLARD, Dallas. A grande omissão: as dramáticas conseqüências de se tornar cristão sem se tornar discípulo. São Paulo: Mundo Cristão, 2008, p.19.

[2] NAÑEZ, Rick. Pentecostal de coração e mente: um chamado ao dom divino do intelecto. São Paulo: Editora Vida, 2007, p.259.

[3] Mateus 23.15. (ARC).

[4]ROMEIRO, Paulo. Decepcionados com a graça: esperanças e frustrações no Brasil neopentecostal. São Paulo: Mundo Cristão, 2005, p.44.

[5] Idem, p.71.

[6]STEFANO, Marcos. Que avivamento é esse? Artigo da revista Eclésia, ano 11-número 125, p.34.

[7] CÉSAR, Marília de Camargo. Feridos em nome de Deus. São Paulo: Mundo Cristão, 2009.

[8] CÉSAR, Marília de Camargo. Feridos em nome de Deus. São Paulo: Mundo Cristão, 2009, p.78.


O EXERCÍCIO DO DOM DE PROFECIA NA IGREJA ATUAL

O EXERCÍCIO DO DOM DE PROFECIA NA IGREJA ATUAL
Subsídio para lição 6, dia 10 de Fevereiro de 2013.
 
“Porque todos podereis profetizar, uns depois dos outros, para que todos aprendam e todos sejam consolados.” 1 Co 14.31

O que é o dom de profecia?
 
É uma manifestação do Espírito Santo que capacita o crente a transmitir uma palavra ou revelação diretamente de Deus, sob o impulso do Espírito Santo, com a intenção de edificar, exortar e consolar a igreja. (1 Co 14.4)
Apesar dessa definição, vale ressaltar que ela não é autoridade maior que as Escrituras, a Palavra de Deus escrita, pois apesar de ser uma manifestação de Deus, está sujeita a falhas por parte do profeta (1 Co 13.9).
Portanto, quando houver uma manifestação profética na igreja, devemos seguir a orientação bíblica de 1 Co 14.29: “E falem dois ou três profetas e os outros julguem.” Isso quer dizer que a mensagem profética deve ser compatível com a mensagem bíblica. É uma verdade que devemos ressaltar porque vemos muitos usando a expressão “Assim diz o Senhor” de forma indevida, como pretexto para um comportamento inadequado, sob a justificativa de que “Deus me falou.” O Espírito Santo nunca irá contradizer a Palavra escrita, a Bíblia Sagrada (1 Co 12.3,4).
 
O dom de profecia faz parte da multiforme graça de Deus, de suas muitas manifestações no corpo de Cristo, que é a Igreja.  Paulo orienta a igreja de Corinto a buscar esse dom (1 Co 14.1), com o objetivo de edificar a igreja, edificando, exortando e confortando o crente (1 Co 14.4,5), bem como de ser um sinal para o infiel (1 Co 14.22-25).
 
É importante frisar que o dom de profecia não pode ser usado como autoridade normativa na vida da igreja, como já falamos anteriormente. A Palavra escrita de Deus deve ser anunciada e ensinada aos crentes, o discipulado não deve ser negligenciado. Além de trazer o conhecimento de Deus, a Palavra do Senhor é escudo e espada contra os pseudo profetas que sempre estão prontos para desviar do caminho da verdade. A idéia de “revelações” tem dado origem a muitos movimentos heréticos na história da igreja:

“Há problemas graves suscitados pelo hábito e dar e receber “mensagens” pessoais de orientação mediante os dons do Espírito. (...) A Bíblia dá espaço para essa direção do Espírito Santo. (...) Mas isso deve ser mantido na devida proporção. Um exame das Escrituras irá nos mostrar que na verdade os cristãos primitivos não recebiam continuamente essas vozes do céu. Na maioria dos casos, tomavam suas decisões pelo que chamavam de “bom senso santificado” e levavam vidas bem normais. Muitos de nossos erros relacionados a dons espirituais surgem quando desejamos que o extraordinário e o excepcional se tornem freqüentes e habituais. Todos os que desenvolvem desejo excessivo por “mensagens” dadas mediante os dons devem extrair lições do naufrágio tanto das gerações passadas como das contemporâneas. (...) As Escrituras são uma lâmpada para os nossos pés e luz para o nosso caminho.”*


Bons estudos
Alan G. de Sá
* Citação do livro Teologia Sistemática, Wayne Gruden. Editora Vida Nova.

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